Blog

Seria yoga uma “apropriação cultural”?

Ruy A. de Bastos Freire Filho

Diretor Centro de Estudos de Yoga Narayana

Hordas de ocidentais envergando camisetas estampadas com divindades do panteão hindu; ou envoltos em túnicas ou turbantes alaranjados; mãos ou pescoço ostentando rosários com sementes de rudraksha,;entoando cânticos sânscritos repetidos com constância; assim como o uso de posições corporais, técnicas respiratórias e de concentração/meditação oriundas do sub-continente indiano (vulgo yoga), poderiam ser classificadas de “apropriação cultural”?

Este termo, de cunho recente, foi rapidamente abraçado pelos ativistas da sinalização de virtude e foi engrossar o rol das prescrições politicamente corretas,  inundando os debates das mídias sociais. Para sabermos se as praticas descritas acima se enquadram como apropriação cultural vamos então  recorrer à uma definição da blogueira Bárbara Paes:

A apropriação cultural acontece quando elementos de uma cultura são adotados por indivíduos que não pertencem a esta cultura. Isso inclui o uso de acessórios e roupas, a exploração de símbolos religiosos, o sequestro de tradições e de manifestações artísticas. A apropriação cultural é especialmente terrível quando se trata de elementos de uma cultura historicamente marginalizada e explorada.

A linha entre apropriação cultural e intercâmbio cultural é tênue. Intercâmbio cultural é um fenômeno natural e bem frequente. Mas a apropriação cultural é um processo bem problemático que precisa ser mais bem compreendido, pois dá uma margem enorme para que elementos de uma cultura sejam banalizados, trivializados e estereotipados. Um grande problema de sequestrar elementos de culturas não dominantes e adotá-los de maneira descontextualizada, é que as pessoas que fazem a apropriação se beneficiam dos aspectos que julgam “interessantes” de uma cultura, ignorando os significados reais desses elementos, enquanto os membros dessa cultura tem que lidar com opressão diariamente.

Dentro desta demarcação a resposta é inequívoca: O yoga, no Ocidente, é uma apropriação cultural.  A cultura indiana, sob o jugo do colonialismo inglês foi historicamente explorada e teve seus interesses postos a margem, e depois de ter seus bens materiais, como minérios, produtos vegetais e animais praticamente exauridos pela coroa britânica, hoje exporta mão de obra barata e um farta parte de sua cultura para usufruto de ocidentais. O fato de o Brasil ter uma ancestralidade portuguesa não nos redime. A presença lusitana em Goa, Damão e Diu também não foi edificante e teve todos os traços do colonialismo e opressão.

Estas considerações não ficam no plano das hipóteses. Em 2015 o Centro de Estudantes com Deficiência da Universidade de Ottawa temendo que o ensino de yoga fosse uma forma de “apropriação cultural”., cancelou as aulas da milenar disciplina oriental.

Portanto professores, adeptos e praticantes de yoga em geral, do hemisfério ocidental, oriundos de culturas coloniais, são  apropriadores culturais e passíveis da censura dos setores da sociedade engajados em patrulhar  este desvio de um gabarito ético. Seria uma forma de himsa (injúria/dano) à aqueles que seriam os legítimos detentores do uso destas práticas e símbolos; e , ainda mais grave, uma afronta direta à um dos pilares dos yamas e niyamas, o preceito do ahimsa (não violência) tão caro ao yoga.

Surge então o dilema: Devemos, aqueles que não se qualificam etnicamente,  renunciar ao yoga? Na minha ótica seria um sonoro “Não”.

Primeiramente porque me parece que aqueles que seriam objeto de himsa (agressão), dão claros sinais de que não entendem assim. Muito pelo contrário. Os governos indianos tem posto um batalhão de técnicos e advogados protegendo tradições que vão de praticas culturais à sementes de plantas em salvaguardas legais para evitar a apropriação indébita, via de regra através de royalties, desta riqueza por grupos  econômico. Com relação ao yoga, a India  patenteou mais de 1000 posturas e técnicas respiratórias e as disponibilizou, livre de encargos,  para o resto da humanidade.  E de forma ainda mais categórica, por gestão do primeiro ministro indiano, Narendra Modi,  a ONU consagrou um dia mundial ao yoga. Trocando em miúdos, longe de se sentirem agredidos, os indianos se sentem lisonjeados com esta “apropriação cultural”, mesmo que seja desfrutada pelos seus antigos algozes.

E aqui aparece  uma das mais nítidas limitações deste conceito.  Ele não pode ser universalizado. O eventual dano é desuniforme, com retornos díspares dos grupos atingidos, com alguns indiferentes, e outros incensados pelo reconhecimento. Aí manda a boa ciência, um dos pilares da cultura humana, descartar ou restringir a aplicação do modelo.

Modelos gestados nos laboratórios das chamadas ciências humanas sofrem periodicamente revezes   nos seus diagnósticos e prognósticos. E a questão cultural não escapa desta eventual mazela. E não necessariamente por descuidos protocolares. É inegável que pensadores que se debruçaram sobre o assunto como Pierre Bordieu que tratou do arbítrio cultural ,  ação pedagógica, violência simbólica , elementos culturais nocivos que ancoram esta noção de apropriação cultural,  investigaram  com rigor  dentro de pressupostos disponíveis, e muitas vezes , em situações específicas seus modelos são mais do que satisfatórios. Mas a diversidade da natureza humana constrange o uso indiscriminado destes gabaritos.

Se os postulados  sócio-ecomicos, históricos, pedagógicos , filosóficos etc, sofrem com inconsistências, as ciências naturais não  são isentas de equívocos.  Mas levam a vantagem de ter um campo de dados mais amplo, muito mais antigo e diverso do que o ambiente humano, com apenas alguns milênios de referencia. O observador dos fenômenos da natureza tem a seu favor a incontável  exuberância de soluções que o planeta  deu as circunstancias mais inesperadas.

E a tradição do yoga, seja do hatha através de suas posturas ou respirações, seja no olhar de Patanjali no terceiro capítulo de sua obra contemplando o universo, é alinhar o ser humano ao ordenamento cósmico. As obras do yoga são extremamente ariscas em relação às instituições humanas, por serem transitórias e inconstantes. Certamente aqueles que vêm no yoga um estilo de vida se sentem mais confortáveis com a visão da cultura pelo seu ponto de vista biológico.

A cultura, sob o ponto vista biológico, é uma informação adaptativa que permite  um  grande gama de seres vivos se adaptarem, mediante modificação comportamental,  à ambientes e circunstancias inesperados.  A alteração de comportamento  permite  que um individuo se adapte a vários meios ou situações com o mesmo aparato fisiológico. Esta informação adaptativa pode ser passada de um animal ao outro na mesma geração. A vantagem deste mecanismo é gigantesca. Enquanto um urso para se adaptar ao polo norte  necessita várias gerações para criar uma capa de gordura que permita resistir ao frio, o ser  humano devidamente agasalhado pode ocupar o mesmo habitat em uma geração. Se um camelo precisou de várias etapas evolutivas para desenvolver a corcova e armazenar agua, o esquimó polar pode aprender com um tuaregue  vários mecanismos  de aprovisionamento do líquido para sobreviver no deserto, na mesma existência.

Este mecanismo de transmissão cultural/comportamental  foi denominado de meme, unidade  análoga aos genes (na transmissão de características fisiológicas), por Richard Dawkins e John Tyler Bonner.  E fica claro que quanto maior o repertório de memes de uma espécie maior sua capacidade de viver em vários habitats e situações. Foi por sua imensa herança cultural que o homem se tornou a espécie mais bem sucedida na ocupação de ambientes  em nosso planeta. Adquirir  e intercambiar cultura é uma das mais importantes conquistas humanas.

O debate sobre apropriação cultural vai na contramão do que é a essência do ser humano, e circunscreve , ao criar um “direito cultural”, a limitação do uso de costumes, adereços, e até normas à grupos sociais e étnicos. Seria desejável? Compartimentalizar manifestações culturais  contribui com uma transformação positiva da sociedade?

No inicio de nossa era uma seita dissidente do judaísmo  foi perseguida por ortodoxos e mais tarde ao se disseminar pelo império romano foi vítima de cruéis perseguições, com  seus seguidores  brutalmente mortos. Seu fundador crucificado. Séculos mais tarde , antes de uma batalha, em um sonho, a forma da cruz apareceu ao imperador romano  Constantino, que se apropriando culturalmente do símbolo, o usou  como estandarte para suas tropas  e venceu o combate. Convertido , gradualmente fez o cristianismo  a  religião oficial do império romano. Hoje a poucos quilômetros do Coliseu, onde os cristãos eram  jogados aos leões, fica o Vaticano, um dos maiores enclaves da cristandade.

Uma análise histórica nos revelaria que esta apropriação cultural redimiu os oprimidos.  Um prognóstico diametralmente oposto ao que nos  deparamos nas redes sociais. Cabe aqui um alerta para aqueles que adotaram este conceito como uma nova forma de sinalização de virtude. Mesmo que seja um elemento bem-intencionado, esta discriminação pode desaguar no lado indesejável. E quanto ao yoga, vamos lutar para que seus benefícios se universalizem por toda sociedade. Sem distinções. Conforme vontade de seus criadores.

 

 

 

 

Top

Comments are closed.

Top

Telefones.: Tel: (11) 3826-5549 / 9.8396-2888

Cadastre seu e-mail ao lado e receba nossa newsletter