Blog

O PROBLEMA DO DESEMPREGO NA ÍNDIA

E. F. Schumacher

Palestra para o Grupo de Desenvolvimento da Índia, em Londres

Quando falo de desemprego refiro-me à não utilização ou à gritante subutilização da mão de obra disponível. Podemos pensar em uma escala de produtividade que se estenda de zero, isto é, a produtividade de uma pessoa totalmente desempregada, até 100%, isto é, a produtividade de uma pessoa plena e muito eficazmente ocupada. A questão crucial para qualquer sociedade pobre é como subir nessa escala. Quando se considera a produtividade em qualquer sociedade não basta levar em conta somente os que estão empregados ou trabalham por conta própria e deixar de fora os desempregados e cuja produtividade é, por isso, zero.
O desenvolvimento econômico é principalmente uma questão de conseguir que se faça mais trabalho. Para isso, são quatro as condições essenciais. Primeiro, deve haver motivação; segundo, deve haver algum know-how; terceiro, deve existir algum capital; e quarto, deve haver uma saída: produção adicional requer mercados adicionais.
No que toca à motivação, pouco há a dizer do lado de fora. Se as pessoas não querem melhorar, é preferível deixá-las sozinhas – isso deve ser o primeiro princípio da ajuda. Os que estão de dentro talvez tenham uma perspectiva diferente e também são diferentes as suas responsabilidades. Para o prestador de ajuda, sempre há bastante gente que quer mesmo melhorar, mas não sabe como fazê-lo. Então, surge o assunto do know-how. Se há milhões de pessoas que querem melhorar mas não sabem como fazê-lo, quem vai mostrar-lhes? Atente-se para as dimensões do problema na Índia. Não estamos falando de uns poucos milhares ou milhões, mas de algumas centenas de milhões de pessoas. A amplitude do problema coloca-o para lá de qualquer espécie de melhoradazinha, de qualquer reforma, aperfeiçoamento ou incentivo de proporções modestas, tornando-o um assunto de filosofia política fundamental. A questão pode ser toda resumida nesta pergunta: para que serve a educação? Creio terem sido os chineses, antes da II Guerra Mundial, que calcularam ser necessário o trabalho de trinta camponeses para manter um homem ou mulher na universidade. Se essa pessoa na universidade fizesse um curso de cinco anos, ao terminá-lo teria consumido 150 anos de trabalho dum camponês. Como pode ser isso justificado? Quem tem o direito de apropriar 150 anos de trabalho campesino para manter uma pessoa na universidade durante cinco anos, e o que recebem os camponeses em troca? Estas perguntas levam-nos à divisão dos caminhos: a educação será um “passaporte para o privilégio” ou é algo que as pessoas resolvem assumir quase como um voto monástico, uma obrigação sagrada de servir ao povo? O primeiro caminho leva o jovem educado a um bairro elegante de Bombaim, onde uma porção de outras pessoas finamente educadas já residem, e ele poderá ingressar numa sociedade de elogios mútuos, um “sindicato dos privilegiados”, para cuidar de que seus privilégios não sejam erodidos pelas grandes massas de seus contemporâneos que não foram educados. Este é um caminho. O outro seria encetado com diferente estado de ânimo e conduziria a destino diferente. Levaria o jovem de volta ao povo que, afinal, direta ou indiretamente, pagou por sua educação com 150 anos de trabalho no campo; tendo consumido os frutos do trabalho dessa gente, ele sente-se na obrigação moral de desenvolver-lhes alguma coisa.
O problema não é novo. Leon Tolstoi referiu-se-lhe quando escreveu: “Sento-me nas costas dum homem, sufocando-o e fazendo-o carregar-me; e, no entanto, juro a mim mesmo e aos demais que lamento muito e gostaria de aliviar a sua sorte, por qualquer meio possível, exceto sair de suas costas”. Assim, sugiro que seja esta a primeira pergunta que temos de enfrentar. Poderemos estabelecer uma ideologia, ou seja qual for o nome que se lhe queira dar, que insista em que as camadas educadas tomaram para si uma obrigação e não adquiriram simplesmente um “passaporte para o privilégio”? Esta ideologia naturalmente é bem apoiada por todos os ensinamentos superiores da humanidade. Como cristão, pode-me ser permitido transcrever de São Lucas: “Muito será esperado do homem a quem muito foi dado. Mais lhe será pedido porque lhe confiaram mais”. Trata-se, podeis dizê-lo, de uma questão de elementar justiça.
Se esta ideologia não predominar, se for aceiro que a educação é um passaporte para o privilégio, então o conteúdo da educação não será sobretudo algo para servir ao povo, mas algo para nos servir, a nós, pessoas educadas. A minoria privilegiada desejará ser educada de maneira que a coloque à parte e inevitavelmente aprenderá e ensinará as coisas erradas, quer dizer, coisas que a põem à parte, com desprezo pelo trabalho manual, pela produção primária, pela vida rural etc. a menos que praticamente todas as pessoas educadas se considerem servidoras de seu país – e isso significa, em última instância, servidoras do povo comum – não poderá haver suficiente liderança nem comunicação do know-how para resolver esse problema de desemprego ou emprego improdutivo no meio milhão de aldeias da Índia. É uma questão de 500 milhões de pessoas. Para ajudar as pessoas a se ajudarem precisa-se pelo menos de duas para cuidar de 100 e isso significa uma obrigação de recrutar 10 milhões de auxiliares, ou seja, toda a população instruída da Índia. Ora, podereis dizer, isso é impossível; mas se o é, a causa não será qualquer lei universal e sim um certo egoísmo inato, congênito, por parte das pessoas que estão perfeitamente preparadas para receber mas não para dar. Na verdade, existem provas de que este problema não é insolúvel; contudo, só pode ser resolvido no plano político.
Passemos agora ao terceiro fator, depois da motivação e do know-how, o fator que designei por capital e que está intimamente vinculado, é claro, à questão do know-how. De acordo com as minhas estimativas, há na Índia uma necessidade imediata de algo em torno de 50 milhões de empregos. Se aceitarmos que as pessoas não podem realizar trabalho produtivo a menos que dispunham de algum capital – sob a forma de equipamentos e também de capital de giro – surge uma interrogação: de quanto capital se pode dispor para estabelecer um novo emprego? /se o estabelecimento de um novo emprego custar £.10, serão precisos 500 milhões de libras esterlinas para 50 milhões de empregos. Se custar £.100, precisar-se-à de cinco trilhões de libras e se o custo for de £.5.000 por emprego, que é quanto poderá custar na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos estabelecer 50 milhões de empregos, serão precisos 250 trilhões de libras esterlinas.
A renda nacional do país de que nos ocupamos, a Índia, é de aproximadamente £.15 bilhões anuais. Portanto, a primeira questão é de quanto podemos dispor para cada emprego e a segunda questão em que prazo de tempo temos para fazer isso. Digamos que o objetivo é arranjar 50 milhões de empregos em 10 anos. De que proporção da renda nacional (que fixei em £.15 bilhões, números redondos) se pode razoavelmente esperar dispor com vistas ao estabelecimento desse fundo de capital para a criação de empregos? Eu diria, sem entrar em pormenores, que teríamos muita sorte se pudéssemos contar com 5%. Portanto, se tivermos 5% de £.15 bilhões durante 10 anos, teremos um total de £.7,5 bilhões para o estabelecimento de empregos. Se a meta é 50 milhões de empregos em 10 anos, podemos permitir-nos gastar uma média de £.150 por posto de trabalho. Por outras palavras, ao nível de investimento de capital por posto de trabalho, seria possível estabelecer 5 milhões de postos de trabalho ao ano. Suponhamos, entretanto, que nos dizem: “Não, £.150 é muito pouco; com isso não se comprará mais que um jogo de ferramentas; queremos £.1.500 por posto de trabalho”. Bem, neste caso não se poderão criar 5 milhões de novos empregos por ano mas apenas meio milhão. Mas agora dizem-nos: “Só o melhor nos interessa. Queremos ser todos desde já pequenos americanos e isso significa que £.5.000 por posto de trabalho é o mínimo aceitável”; então já não se poderá pensar em meio milhão de novos empregos por ano, sem falar nos 5 milhões, mas apenas uns escassos 170.000. Ora, já foi sem dúvida notado que simplifiquei muitíssimo esta questão, visto que nos dez anos com investimento em empregos haveria um incremento da renda nacional; mas também deixei de fora o aumento demográfico e considero que estes dois fatores se cancelam mutuamente em seu efeito sobre os meus cálculos.
Decorre daí, a meu ver, que a maior decisão coletiva que qualquer país na situação da Índia tem de tomar é a escolha de tecnologia. Não estou pretendendo apresentar a lei do que deveria ser. Estou simplesmente afirmando que estas são as duras realidades da vida. Há inúmeras coisas passíveis de contestação, mas não se pode argumentar contra a aritmética. Assim, pode-se ter alguns empregos a um nível elevado de capitalização ou pode-se ter muitos empregos a um nível relativamente baixo de capitalização.
Bem, tudo isto, está claro, liga-se a outros fatores, já por mim mencionados, como educação, motivação e know-how. Na Índia há cerca de cinquenta milhões de alunos em escolas primárias; quase quinze milhões nas secundárias; e, grosso modo, um milhão e meio em instituições de ensino superior. Manter uma maquinaria educacional deste gênero seria naturalmente bobagem a menos que no final da linha houvesse alguma coisa para essa gente fazer, com oportunidade de aplicar seus conhecimentos. Se não houver, a coisa toda não passará de um tremendo ônus. Este quadro resumido do esforço educacional basta para mostrar que realmente se tem de pensar em termos de cinco milhões de empregos novos por ano e não de umas quantas centenas de milhares.
Ora, até bem recentemente, isto é, uns 50 a 70 anos atrás, a maneira como fazíamos as coisas era bastante primitiva, de acordo com os padrões atuais. A propósito, gostaria de referir-me ao Capítulo II de The New Industrial State, de John Kenneth Galbraith.  Ele contém um relato fascinante a respeito da Ford Motor Company. Esta foi instalada a 16 de junho de 1903, com um capital autorizado de US$150.000 dos quais $100.000 foram emitidos mas só $28.500 realizados em dinheiro. Assim, o total de dinheiro investido nessa empresa foi da ordem de $30.000. Eles se estabeleceram em junho e o primeiro carro a chegar ao mercado apareceu em outubro de 1903, isto é, após 4 meses. O número de empregados em 1903, naturalmente, era pequeno – 125 pessoas, e o investimento de capital por posto de trabalho ficou um pouco abaixo de US$200,00. Isto foi em 1903. Se avançarmos agora 60 anos, para 1963, verificamos que a Ford Motor Company resolveu produzir um novo modelo, o Mustang. A preparação exigiu três anos e meio. Os custos de engenharia e projeto do modelo foram de US$9 milhões; os custos de equipamento da fábrica para o novo modelo foram de US$50 milhões. Entrementes, o ativo empregado pela companhia esta em US$6 bilhões, o que dá uns US$20.000 por pessoa empregada, cerca de cem vezes mais do que sessenta anos antes.
Galbraith tira certas conclusões de tudo isso que vale a pena estudar. Elas descrevem os acontecimentos durante esses sessenta anos. A primeira é que um período de tempo imensamente acrescido separa agora o início do término de um empreendimento. O primeiro automóvel Ford, do início do trabalho até ao seu aparecimento no mercado, levou quatro meses, ao passo que uma simples alteração de modelo leva agora quatro anos. Em segundo lugar, verifica-se um vasto incremento do capital dedicado à produção. O investimento por unidade de produto na fábrica Ford original era infinitesimal; o material e as peças paravam na oficina por breve tempo; nenhum especialista caro prestava-lhes atenção; só máquinas elementares eram usadas na montagem de um carro; ajudava o fato de um chassi de automóvel poder ser levantado por dois homens apenas. Em terceiro lugar, nesses sessenta anos, deu-se um vasto aumento da inflexibilidade. Galbraith comenta: “Tivessem Ford e seus companheiros (1903) oficina poderia ter-se adaptado à modificação em poucas horas.” Agora, se tentassem mudar sequer um parafuso, isso levaria muitos meses. Em quarto lugar, crescente mão de obra especializada não só na maquinaria mas também no planejamento, na previsão do futuro em seus ínfimos detalhes. Quinto, um tipo tremendamente diferente de organização para integrar todos esses numerosos especialistas, nenhum dos quais sabe fazer mais do que uma pequena tarefa dentro do complicado conjunto. “Tão complicado, de fato, será o trabalho para organizar os especialistas que haverá especialistas em organização. Mais até do que a maquinaria, maciças e complexas organizações comerciais estão sendo manifestações tangíveis da tecnologia adiantada.” Finalmente, a necessidade de planejamento a longo prazo, que, posso garantir, é uma tarefa extremamente requintada e também extremamente frustradora. Galbraith comenta: “Nos primeiros dias da Ford, o futuro estava bem à mão. Só dias se passavam entre o cometimento da maquinaria e dos materiais à produção e o aparecimento desta sob a forma de um automóvel. Se o futuro está bem à mão, pode-se supor que seja muito parecido com o presente”, e o planejamento e a previsão não são muito difíceis.
Ora, qual é o desfecho de tudo isso? O desfecho é que, quanto mais requintada a tecnologia, maiores em geral serão as exigências precedentes. Quando as coisas simples da vida, que é tudo o que me interessa, são produzidas por processos cada vez mais sofisticados, então a necessidade de atender essas seis exigências ultrapassa a capacidade de qualquer sociedade pobre. No que toca a produtos simples – comida, vestuário, abrigo e cultura – o perigo maior é as pessoas suporem automaticamente que só o modelo de 1963 é relevante e não o de 1903; porque o modelo de 1963 para fazer as coisas é inacessível aos pobres, já que pressupõe grande riqueza. Ora, sem querer ser rude com meus amigos acadêmicos, eu diria que este ponto é quase universalmente ignorado por eles. A questão do quanto se pode dispor para cada posto de trabalho, quando se carece de milhões deles, quase nunca é ventilada. Satisfazer os requisitos que surgiram nos últimos 50 ou 60 anos, de fato implica em um salto quântico. Tudo era bastante contínuo na história da humanidade até mais ou menos o começo deste século; nos últimos cinquenta anos, porém, houve um salto quântico, semelhante ao da capitalização da Ford, de 30 mil para 6 bilhões de dólares.
Num país em desenvolvimento, é pouco provável arranjar-se Henry Ford ao nível de 1903. Arranjar super-Henry Fords para avançar praticamente do nada para o nível de 1963 é virtualmente impossível. Ninguém pode começar neste nível. Isso significa que ninguém pode fazer coisa alguma a esse nível a menos que já esteja estabelecido e já esteja operando nesse nível. Isto é absolutamente decisivo para entendermos o mundo moderno. A este nível não são possível criações mas apenas extensões, e isso quer dizer que os pobres são mais dependentes dos ricos do que jamais o foram na história humana, se estiverem apegados a esse nível. Eles só podem preencher espaços vazios para os ricos, por exemplo onde os salários baixos os habilitam a produzir mais barato esta ou aquela bugiganga. As pessoas esquadrinham por toda parte e dizem: “Olhe, neste ou naquele país pobre os salários são tão baixos que podemos mandar produzir umas peças de relógio, ou de um carburador, mais barato que na Grã-Bretanha. Então, tratemos de fabricá-las em Hong-Kong ou Taiwan, ou seja lá onde for”. O papel dos pobres é tapar os buracos nas necessidades dos ricos. Conclui-se que a esse nível de tecnologia é impossível alcançar seja o pleno emprego seja a independência. A escolha de tecnologia é a mais importante de todas as escolhas.
É um fato estranho algumas pessoas dizerem não haver opções tecnológicas. Li um artigo por um economista norte-americano muito conhecido que assevera só haver uma maneira de produzir qualquer artigo: a maneira de 1971. Nunca foram produzidos antes esses artigos? As coisas básicas da vida têm sido precisas e produzidas desde que Adão saiu do Paraíso. Diz ele que a única maquinaria que pode ser adquirida é a mais recente. Ora, isso é uma questão diferente e pode muito bem acontecer que a maquinaria mais fácil de adquirir seja a mais recente. É verdade que a qualquer dado momento só há um tipo de maquinaria que tende a dominar o mercado e isso dá a impressão de não haver alternativa e de o aumento de capital em sociedade determinar o número de empregos que ela possa ter. Está claro que isto é absurdo. O auto que estou citando também sabe que isso é absurdo e aí se corrige e aponta os exemplos do Japão, Coréia, Taiwan etc, onde as pessoas alcançam alto nível de emprego e produção com equipamento de capital muito modesto.
A importância da escolha tecnológica está entrando gradativamente na consciência dos economistas e planejadores de desenvolvimento. Há quatro fases. A primeira foi composta de risadas e rejeição sardônica de quem falasse disso. A segunda foi agora atingida e as pessoas falam nisso da boca pra fora, mas não resultou daí qualquer ação e a tendência prossegue. A terceira fase seria trabalho ativo na mobilização do conhecimento dessa escolha tecnológica; a quarta fase será, enfim a aplicação prática. É um caminho longo, mas não desejo esconder o fato de haver possibilidades políticas de se chegar diretamente à quarta fase. Se existe uma ideologia política que vê o desenvolvimento em termos da pessoa humana, então pode-se empregar imediatamente o engenho de centenas de milhões de pessoas e partir direto para a quarta fase. Há, com efeito, diversos países fazendo isso.
Entretanto, não me cabe falar de política. Se agora está sendo cada vez mais entendido que essa escolha tecnológica é de fundamental importância, como poderemos sair da fase dois para a três, ou seja, da mera conversa fiada para a realização do trabalho? Que eu saiba, esse trabalho só está sendo sistematicamente realizado por uma organização, o Grupo de Desenvolvimento de Tecnologia Intermediária (I.T.D.G.). Não nego que algum trabalho também esteja sendo efetuado em base comercial, mas não sistematicamente. O I.T.D.G. impôs-se a si mesmo a tarefa de descobrir quais são as opções tecnológicas. Darei só um exemplo das muitas atividades desse grupo puramente privado. Considere-se o trabalho de fundição e marcenaria, sendo o metal e a madeira as duas matérias-primas básicas da indústria. Ora, quais são as tecnologias alternativas que podem ser empregadas, dispostas em ordem de uso intensivo do capital a partir da mais primitiva, quando as pessoas trabalham com as ferramentas rudimentares, até a mais complexa? Isto mostra-se no que eu denomino um perfil industrial e estes perfis industriais são apoiados por manuais de instrução em cada nível de tecnologia e por um catálogo de equipamento com os endereços onde pode ser obtido.
A única crítica que pode ser lançada contra esta atividade é ser demasiado escassa e demasiado tardia. Não é suficiente que nesta questão crucial se fique satisfeito com um pequeno grupo de entusiastas particulares que fazem o trabalho. Deviam ser dúzias de organizações sólidas, bem dotadas, fazendo isso no mundo inteiro. A tarefa é tão vultuosa que até uma certa sobreposição não faria mal. De qualquer modo, espero que esse trabalho seja empreendido em escala realmente substancial na Índia, e estou encantado ao ver que algumas medidas iniciais já foram tomadas.
Voltar-me-ei agora para o quarto fator, ou seja, os mercados. Há, naturalmente, um problema muito real nisto, porquanto pobreza significa que os mercados são pequenos e há muito pouco poder aquisitivo livre. Todo o poder aquisitivo que já existe está, por assim dizer, apalavrado, e se eu começar uma produção nova de, por exemplo, sandálias ou sapatos em uma área pobre, meus colegas de sofrimento nessa área não terão qualquer dinheiro para comprar os sapatos quando eu os tiver feito. Ás vezes é mais fácil iniciar produção do que encontrar mercados, e aí, é claro, não tardamos em receber conselhos de produzir para exportar, porque as exportações se destinam sobretudo a países ricos e seu poder aquisitivo é abundante. Porém, se partir do nada em uma região rural, que esperança poderei ter de ser competitivo no mercado mundial?
Há duas razões para essa extraordinária preocupação com as exportações, até onde me é dado perceber. Uma é verdadeira; a outra nem tanto. Falarei primeiro da segunda. É realmente um resquício do pensamento econômico dos tempos do colonialismo. É claro, a potência metropolitana instalava-se em um território não por estar particularmente interessada na população local, mas a fim de arranjar recursos necessários para sua própria indústria. Entrava-se na Tanzânia atrás do sisal, na Zâmbia por causa do cobre, etc., e em alguns outros lugares pelo comércio. Todo pensamento inteiro era condicionado por tais interesses.
“Desenvolvimento” significava desenvolvimento de suprimentos de matérias-primas e gêneros alimentícios ou de lucros comerciais. A potência colonial estava principalmente interessada em abastecimento e lucros, não no progresso dos nativos, e isso queria dizer que estava primordialmente empenhada nas exportações da colônia e não em seu mercado interno. Esta concepção enraizou-se de tal maneira que até o Relatório Pearson considera a expansão de exportações o principal critério de êxito para países em desenvolvimento. Mas, é claro, as pessoas não vivem de exportar e o que produzem para si mesmas e umas para as outras é infinitamente de maior importância do que o que produzem para estrangeiros.
O outro ponto, entretanto, é mais real. Se produzo com o fito de exportar para um país rico, posso considerar como certa a possibilidade de poder aquisitivo, porque minha pequena produção própria nada é comparada com a que já existe. Mas se inicio a produção nova em um país pobre pode não haver mercado local para meus produtos, a menos que eu desvie o fluxo do poder aquisitivo de algum outro produto para o meu.Uma dúzia de produções diferentes deveriam ser iniciadas juntas; neste caso, para cada um dos doze produtores os outros onze seriam seu mercado. Haveria adicional poder aquisitivo para absorver o produto adicional. É extremamente difícil, porém, começar ao mesmo tempo muitas atividades diferentes. Daí o conselho convencionar ser este: “Só a produção para exportação se pode dar o nome de desenvolvimento.” Essa produção não só é altamente limitada em seu âmbito mas seu efeito sobre o número de empregos é também extremamente restrito. Para competir nos mercados mundiais, normalmente é necessário empregar uma tecnologia altamente intensiva no uso de capital e economia de mão de obra, que é a utilizada pelos países ricos. De qualquer forma, não há efeito multiplicador: as minhas mercadorias são vendidas para obter moeda estrangeira e esta é gasta em importações (ou liquidação de dívidas), e aí acaba tudo.
A necessidade de começar muitas atividades produtivas complementares simultaneamente apresenta uma dificuldade bastante séria para o desenvolvimento, mas que pode ser atenuada mediante algumas “bombadas” com obras públicas. As virtudes de um maciço programa de obras públicas para a criação de empregos tem sido amiúde exaltadas. O único ponto para o qual eu gostaria de chamar a atenção a este propósito é o seguinte: se e possível introduzir novo poder aquisitivo em uma comunidade rural graças a um programa de obras públicas financiado de fora, cuide-se de que seja utilizado ao máximo o “efeito multiplicador.” As pessoas empregadas nas obras públicas querem gastar seus salários em “bens de salário”, isto é, bens de consumo de todos os tipos. Se esses bens de salário puderem ser produzidos localmente, o novo poder aquisitivo criado através do programa de obras públicas não se ecoará, mas continuará circulando no mercado local, e o efeito sobre o número total de empregos poderá ser prodigioso. As obras públicas são muito desejáveis e podem trazer grandes benefícios mas se não forem apoiadas pela produção nativa de bens de salário adicionais, o acréscimo de poder aquisitivo fluirá para as importações e o país poderá sofrer sérias dificuldades cambiais. Mesmo assim, é um equívoco depreender desse truísmo que as exportações são decisivamente importantes para o desenvolvimento. Afinal de contas, para a humanidade como um todo não há exportações. Não iniciamos o desenvolvimento obtendo moeda estrangeira de Marte ou da Lua. A humanidade é uma sociedade fechada. A Índia é bastante grande para, nessa acepção, ser também uma sociedade fechada – uma sociedade onde as pessoas aptas trabalham e produzem aquilo de que precisam.
Tudo parece muito difícil e, em certo sentido é, se as coisas se fizerem para as pessoas e não pelas pessoas. Não se pense, entretanto, que desenvolvimento ou emprego sejam outra coisa senão o que há de mais natural no mundo. Eles ocorrem na vida de toda a pessoa sadia. Chega um momento em que ela se põe simplesmente a trabalhar. Em certa acepção, isso é mais fácil de fazer agora que em qualquer outra época da história humana. Porquê? Por se dispor hoje de muito mais conhecimentos. As comunicações são incomparavelmente melhores. Pode-se recorrer a todo esse cabedal de conhecimentos (é para isso que existe o Grupo de Desenvolvimento da Índia). Assim, não nos hipnotizemos com as dificuldades mas tratemos de recuperar o ponto de vista ditado pelo bom-senso, segundo o qual o trabalho é a coisa mais natural do mundo. Só que ninguém deve deixar-se bloquear, “bancando o esperto” a respeito disso. De fato, estamos sempre tendo inúmeras ideias engenhosas sobre como tirar o máximo proveito de alguma coisa, antes mesmo dessa coisa existir. Acho que o homem estúpido que diz “qualquer coisa é melhor que nada” mostra ser muito mais inteligente do que o sujeito esperto que não moverá uma palha se o resultado não for ótimo. O que é que nos detém? As teorias, o planejamento. Encontrei planejadores na Comissão de Planejamento que se convenceram a si mesmos de que nem mesmo em quinze anos será possível por a trabalhar a diligente força de trabalho da Índia. Se eles dissessem quinze meses, eu aceitaria isso, porque leva algum tempo contornar obstáculos e por as coisas em marcha. Mas atirar a toalha e dizer que é impossível realizar as coisas mais elementares em quinze anos, parece-me ser apenas uma espécie de degenerescência intelectual. Qual é o argumento subentendido nisso? Oh! A argumentação é muito habilidosa, um esplêndido exemplo de construção de modelo. Eles apuraram que, para por um homem a trabalhar, se precisa em média de tanta eletricidade, tanto de cimento e tanto de aço. Isto é absurdo. Gostaria de lembrar que, há cem anos, eletricidade, cimento e aço não existiam sequer em quantidades significativas. (E, a propósito, é bom recordar que o Taj Mahal foi construído sem eletricidade, cimento ou aço, e que todas as catedrais góticas da Europa não precisaram de nada disso para ser edificadas. É uma fixação mental que tem de ser superada, essa de pensar que se não dispusermos do que há de mais recente no mercado nada se poderá fazer.) Talvez nos respondam de novo que isso não é um problema econômico mas, basicamente, um problema político. No fundo, é um problema de compaixão pela gente comum do mundo; um problema de se conseguir uma espécie de alistamento voluntário das pessoas instruídas e não de se recrutar gente comum.
Um outro exemplo: dizem-nos os teóricos e planejadores que o número de pessoas que se pode por a trabalhar depende da soma de capital disponível, como se não fosse possível por gente a trabalhar na produção de bens de capital. Dizem-nos que em tecnologia não há opção, como se a produção tivesse começado em 1971. Dizem-nos que só pode ser econômico o uso dos mais recentes métodos, como se pudesse haver algo mais antieconômico do que pessoas sem fazer coisa alguma. Dizem-nos ainda que é necessário “eliminar o fator humano.”
A maior privação que alguém pode sofrer é não ter oportunidade alguma de cuidar de si mesmo e providenciar seu próprio ganha-pão. Não há conflito algum entre crescimento e emprego. Nem sequer há conflito entre presente e futuro. Será preciso inventar um exemplo muito absurdo para demonstrar que se cria um conflito entre o presente e o futuro ao permitir que as pessoas trabalhem. Nenhum país que se desenvolveu foi capaz de fazê-lo sem deixar as pessoas trabalharem. Por um lado, está certo afirmar que estas coisas são difíceis; por outro lado, não se perca nunca de vista o fato de estarmos discorrendo sobre as necessidades mais elementares do homem e de que essas considerações pomposas e intrincadas não nos devem impedir de fazer as coisas mais elementares e diretas.
Ora, ocorrendo o risco de ser mal interpretado, darei o mais simples de todos os exemplos possíveis de autoajuda. O Bom Deus não deserdou nenhum de seus filhos e, no que toca à Índia, dotou-a de uma variedade de árvores que não tem parelha no mundo. Há árvores para quase todas as necessidades humanas. Um dos maiores mestres da Índia foi Buda, que incluiu em seus ensinamentos a obrigação de todo o bom budista plantar e cuidar da consolidação de uma árvore de cinco em cinco anos, no mínimo. Enquanto isso foi observado, toda a vasta superfície da Índia esteve coberta de árvores, livre de poeira, com água em abundância, frondosas sombras, farta em alimento e materiais. Imagine-se que fosse possível agora estabelecer uma ideologia tornando obrigatório a cada pessoa apta na Índia, homem, mulher e criança, fazer essa pequena coisa: plantar e cuidar de que vingue uma árvore por ano, cinco anos seguidos. Isto, em um período de cinco anos, daria 2 bilhões de árvores consolidadas. Qualquer pessoas pode calcular nas costas dum envelope que o valor econômico de tal empreendimento, conduzido com inteligência, seria maior do que qualquer coisa prometida até hoje, por qualquer dos planos quinquenais da Índia. Poderia ser feito sem um centavo de ajuda estrangeira; não há problema de poupança e investimento. Produzir-se-iam alimentos, fibras, material de construção, sobra, água, quase tudo o que o homem realmente necessita.
Deixo isto apenas como uma ideia, não como a resposta final aos enormes problemas da Índia. Mas, pergunto: que espécie de educação é essa que nos impede de pensar em coisas fáceis de fazer imediatamente? O que nos leva a pensar que precisamos de eletricidade, cimento e aço antes de se fazer qualquer coisa? As coisas realmente úteis não serão feitas a partir do centro; elas não podem ser realizadas por grandes organizações, mas sim pelas próprias pessoas. Se pudermos recuperar a percepção de que a coisa mais natural para toda pessoa nascida neste mundo é usar suas mãos de maneira produtiva e de que não está fora do alcance da sabedoria humana tornar isso possível, então creio que o problema do desemprego desaparecerá e em breve estaremos perguntando a nós mesmos como poderemos conseguir que se faça todo o trabalho que precisa ser feito.

Top

Comments are closed.

Top

Telefone: +55 11 93210-2007

Cadastre seu e-mail ao lado e receba nossa newsletter