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A Consciência que vê

Palestra proferida pela Professora
Léa da Rocha Mello no Encontro
Nacional de Yoga – Saúde e Paz

 Belo Horizonte – MG
Dia 17 de julho de 2004

Há alguns anos a medicina vem avançando em conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro humano, trazendo “soluções” para os vários problemas que se apresentam. Com isto fomos colecionando subsídios para fazer comparações com o que existe há séculos nos ensinamentos contidos nos Vedas, dando oportunidade a observações bem interessantes como as que reunimos para este encontro.

Há um caminho a ser percorrido através destes estudos até alcançarmos o que nos propõe Sri Aurobindo com sua Consciência que Vê.

Recente artigo sobre psiquiatria e neurociência diz o seguinte: – “nas novas pesquisas de neurociência evidencia-se que o processo psicoterapeutico é capaz de reformatar os circuitos cerebrais do paciente”.

Os resultados dos projetos Genoma e Celera, em 2001, bem recentemente, mostraram que os genes representam os alicerces da maioria das características humanas e que a essência da humanidade está na interação dos genes com o ambiente.

Isto implica na urgência de se rever a frase – “genética é destino”. Para nós que praticamos yoga essa colocação é importante, porque genética é o que está registrado na memória do ser, em suas células.

Sabe-se hoje que a genética representa apenas uma “propensão” para um destino, essa propensão no Vedānta se chama vāsanās ou tendências. O articulista diz, que o destino, pode ser alterado pelas experiências do individuo durante sua trajetória de vida (no Vedānta isto é puruṣārtha, no yoga tapas – auto esforço ).

O Yoga ensina que o processo psicológico do ser humano pode ser modificado através da correta compreensão do mecanismo mental com relação ao mundo externo e que a meditação ajuda neste processo.

O Yoga nos mostra que os vāsanās ou tendências podem se dissolvidos, erradicados com a prática da meditação.

O artigo ainda nos diz que no final do século XlX a tendência era ver o cérebro e a mente separados devido a dicotomia cartesiana que dividia corpo e mente.

O corpo físico, cérebro, era tratado pela psiquiatria organista com eletrochoques para mudar um comportamento.

A parte psíquica, emocional era tratada pela psiquiatria analítica.

Neste novo milênio com as descobertas na área de imagem cerebral e com as pesquisas genéticas, os avanços culminaram em uma mudança de paradigma: a integração cérebro/mente (que já era conhecida e estudada nos vedas).

“Atualmente coisas etéreas como pensamentos e sentimentos, de alguma forma podem ser monitorados por meio de técnicas de ressonância magnética”.

O Yoga ensina que pensamentos e sentimentos podem ser otimizados pela meditação.

A atividade cerebral é visualizada por medição das variáveis do consumo de oxigênio e da utilização da glicose, comprovando com rigor cientifico a hipótese teórica do modelo integrado cérebro/mente.

O que isto tem a ver com Yoga, ou meditação?

O processo analítico e científico difere do processo meditativo – o cientifico usa medicações (drogas) para inibir os estados agitados ou depressivos do paciente, mascara os problemas, não os resolve.

O analítico é lento, demorado, depende da pessoa entregar os segredos mais profundos do seu ser ao analista.

Este processo requer a conquista da confiança do paciente e tempo para que ele se confie ao analista.

A meditação não depende de ninguém, só de nós mesmos. É mais segura e não precisamos brincar de engana-engana, esperando que as barreiras caiam.

O papo é entre “eu e mim mesmo”, não precisamos fingir nem nos disfarçar.

Robert Lent, neurobiologista, esclarece que a comunidade cientifica deve se engajar na divulgação da ciência. Os cientistas produzem cultura, conhecimento.

O Yoga também é ciência e como tal deve ser divulgado, fazendo paralelos entre os processos científicos que agora estão sendo divulgados e os ensinamentos milenares desse processo que denominamos Yoga.

“Os cientistas estão caminhando para o desenvolvimento de drogas e dispositivos eletrônicos que possibilitem a cura ou o alivio de sintomas de pacientes com traumatismos do sistema nervoso e doenças neurodegenerativas e esses medicamentos poderão ser usados não apenas para tratamentos de doentes como para ampliação das capacidades de pessoas normais. Cada vez conhecem melhor as vias bioquímicas da memória, estando cada vez mais perto do uso de drogas pró-memória”.

O Yoga já utiliza os meios de reformatar todo circuito cérebro/mente há milênios, através do uso do prāṇāyāma e dhyāna (meditação) sem saturar o cérebro com medicamentos. O processo meditativo desenvolve todos os componentes necessários bioquimicamente para um funcionamento perfeito em todos os níveis em que sejam necessários. Em 1926 Swami Kuvalayānanda comprovou cientificamente estes efeitos. O cientista interior que possui todos os conhecimentos elabora as substâncias para que o aperfeiçoamento das funções aconteça.

Na meditação, profundas transformações acontecem sem a interferência do intelecto. O sábio, presente no Ser, se manifesta e soluciona o problema.

Os neurônios podem e devem ser nutridos e revitalizados pela prática doprāṇāyāma e da Meditação, para se manterem “sempre vivos”.

“No mundo dos neurônios o que mais fascina é como umas bolinhas tão minúsculas, geradas a partir de uma única célula-ovo, associam-se de modo tão complexo a ponto de criar funções tão sofisticadas como a memória, o pensamento, as emoções, etc. O mundo dos neurônios individuais não é tão complicado, mas, quando se associam, a complexidade do resultado é impressionante”, nos diz o Dr.Lent.

Impressionante também é o resultado de três meses de intenso trabalho meditativo que não só disponibiliza sua memória para resultados como capacita a registros notáveis no seu arquivo interior. Clareia seus pensamentos e controla suas emoções, otimizando seu desempenho no mundo moderno.

É coisa para se pensar e disponibilizar tempo, verificando dessa forma resultados fantásticos.

Aconselhamos a leitura do livro do cientista Robert Lent – Aventuras de um neurônio lembrador – O neurônio apaixonado. A linguagem é muito simples porque ele escreve para crianças.

Agradecemos aos dois cientistas pela maravilhosa colaboração para nosso trabalho e por possibilitar uma clara analogia com os processoscientíficos naturais do yoga.

“O Dalai Lama levantou a seguinte questão, se for possível formular a hipótese de que não estamos permanentemente programados e que nosso cérebro e nossa mente são maleáveis e com possibilidades de crescimento, transformação e redução dessas emoções destrutivas (medo, violência, tensão, etc.) então poderemos perguntar como fazê-lo?”.

“Mesmo que no mundo atual do conhecimento não tenhamos ainda as condições de atingir os objetivos propostos pelo Dalai Lama, provavelmente a união do conhecimento científico com a visão humanística que o novo paradigma cérebro/mente permite, trará novas formas de se ajudar o ser humano nesta sua tarefa de adaptação ao meio ambiente”.

Mas não é só isso, sabemos que é possível uma grande transformação a nível individual e mais além, social, através da prática do yoga e da meditação.

Foi isto que o Dalai Lama quis dizer: a plasticidade mental permite toda esta transformação.

Isto está sendo ensinado há milênios por inúmeros e grandes mestres e atualmente pelo próprio Dalai Lama.

Com certeza ajudará a humanidade!

Há muitos séculos Kṛṣṇā ensinou a meditar no Bhagavad Gītā, cap. VII:

12. “Ouve as instruções, fecha bem as portas dos sentidos corporais. Domina o teu coração, concentra a tua mente sobre o teu Eu interior, e não a deixe vaguear no exterior, nem ocupar-se com pensamentos estranhos”.

13. “Se constante e firme em teus propósitos e repete silenciosamente a palavra AUM (OM), cujos três sons ou letras são símbolos do Ser Supremo, como Criador, Conservador e Destruidor.

Há dois mil anos os ensinamentos do cristo diziam, Matheus 6.6 – Sermão da Montanha: “mas tu quando orares, entra no teu aposento (coração) e fechando a tua porta (sentidos), ora a teu Pai que estáoculto e teu Pai, que vê secretamente, te recompensará.”

“O Alcorão ensina ao mulçumano a entoar o seu mantra sua oração: “Allah Akbar” e assim abrir as portas da percepção para contatar a Divina Energia, e expandir a sua Consciência em altos níveis, promovendo essa União – yoga, com certeza!”

Em que parte do ser ou em que nível essa união acontece? No plano daConsciência que Vê!

E como alcançá-la? Este é um caminho que pode ser longo, de acordo com as práticas ancestrais ou mais rápido, através do yoga, dameditação – Dhyāna que acelera o processo de transformação do ser.

Além dos corpos, físico, mental e intelectual, o homem possui, acima de tudo, Consciência. O desenvolvimento do homem culmina quando ele desenvolve a sua identidade com esse Principio que é o Cerne Espiritual e a sua Natureza Real.

A Consciência Pura (Citta) é a causa da função do corpo físico, mental e intelectual, sem estes ela não poderia manifestar-se. Podemos comparar o físico com uma lâmpada: quando não está acesa, ela é um objeto inerte.

Tecnicamente o homem alcançou grandes vitórias, moveu-se nos espaços celestes, construiu máquinas que o levam cada vez mais longe e talvez mais longe dele mesmo, o que é pior e aterrador. Mas as questões essenciais da vida ele ainda não é capaz de solucionar.

Perguntas como: o que somos nós? Para onde vai a humanidade? Continuam sem respostas.

Os Vāsanās (nossas tendências) são o nosso subconsciente e nele esta contido tudo que nós recebemos como informação e mesmo o que trazemos por hereditariedade, ou ainda karmicamente.

natureza ou prakṛti opera através das guṇas ou  qualidades: -Sattva, Rajas, e Tamas. Sattva é o principio da Luz na natureza, pureza, conhecimento.

Rajas – ação produzida pelo desejo, é o principio cinético na natureza (a cinética estuda os movimentos independentemente das condições em que se realizam).

Tamas – o principio da obscuridade e inércia, é ignorância. As duas últimas podem e devem se modificadas, refinadas.

Mas estas qualidades não podem ser transformadas de uma só vez, nossa estrutura física não agüentaria. É um erro querer mudar de uma hora para outra todo um modo de ser. Nós precisamos de purificação para que a manifestação perfeita seja permanente, para que a transformação seja Verdadeira e não uma Ilusão.

Os yamas e nyamas de Patañjali, bases para esta transformação, são alcançados através de muita prática interior de purificação e não por simples comportamento, isto é, você não deve se comportar como se fosse bom, inteligente ou sábio – você deve ser Bom, Inteligente e Sábio. Há uma grande diferença entre as duas maneiras, em uma você se comporta como se fosse, e na outra você É. O cuidado para não enganar a si mesmo deve ser constante. Pesar bem o que foi purificado ever se realmente alcançou a meta.

Os yamas são caracterizados principalmente por ahiṁsā (não-violência) e satya (verdade) e os nyamas pela pureza (śauca), alegria (saṁtoṣa) e esforço sobre si mesmo (tapas).

Além disto nós podemos usar outros métodos de purificação destes estados internos pela prática do Bhakti Yoga – Yoga da Devoção;Karma Yoga – Yoga da Ação; Jñāni Yoga – Yoga de Conhecimento, ou pela prática do Yoga Integral de Sri Aurobindo que nos ensina a sermos conscientes de qualquer movimento do ser vital, mental e psíquico para vivermos como seres verdadeiros.

Adquirimos experiência quando recebemos e respondemos aos estímulos externos. Essa experiência se compõe de três fatores – o sujeito, o objeto e a relação entre os dois que é a experiência em si (a vida cotidiana).

Nós possuímos um Eu Maior e um eu menor ou ego. O Eu é Divino, é espírito.

O ego é constituído pela natureza. É uma formação mental, vital e física para ajudar a individualizar a consciência e a ação exterior.

Pela observação destas experiências são formadas as diferentes personalidades das pessoas. Vamos ver graficamente como isto acontece, de acordo com os ensinamentos do Vedānta:

A consciência que vê

Quando o conhecimento (Vidyā) no homem, ultrapassa essas camadas, removendo a ignorância (Avidyā) ele alcança a Sabedoria. Ela está além do intelecto – “assim como o braço se move a partir do ombro, assim a consciência se move a partir do cérebro”. Quanto mais o homem eleva o seu espírito e expande a sua Consciência, mais ele vê.

E é essa Consciência que Vê que nós precisamos alcançar.

Quando os últimos traços do ego são dissolvidos através de Dhyāna – Meditação, em seus últimos estágios, a nossa evolução se otimiza, e o homem se transforma em amor, Paz, Sabedoria.

Sri Aurobindo nos diz que: “o ser de superfície é estreito, ignorante, limitado. O ser verdadeiro é vasto, cheio de conhecimento, ilimitado.”

Precisamos ultrapassar as barreiras corpóreas e até as mais sutis, alçar vôo, expandir a nossa consciência, torná-la clara, pura, Consciência Absoluta. Aquela que se mantém inalterada e inalterável. Esta é aConsciência que Vê.

Para esta conquista, um caminho tem de ser percorrido. Sri Aurobindo nos diz ainda que “a experiência espiritual mostra que há por trás de tudo uma vasta região de igualdade, paz e liberdade e é somente penetrando nela que podemos alcançar a Consciência que Vê!”.

“É pela completa entrada nessa amplitude de si mesmo que o homem torna possível a cessação da atividade mental – o Silêncio Interno, no qual a Verdade é vivenciada”.

A mente pura reflete somente do Divino e todas as ações do homem a partir daí serão perfeitas – porque ele É a Consciência que vê.

É um trabalho de transformação que deve acontecer em cada um de nós para termos essa Consciência em todos os níveis do nosso existir.

Com os ensinamentos do Sri Aurobindo orientando e a prática daMeditação como processo consciente de transformação, certamente alcançaremos a meta do Yoga: Saúde e Paz! Que é a proposta deste Encontro Nacional aqui em Belo Horizonte.

Pensamos em encerrar este nosso trabalho fazendo com todos vocês uma meditação silenciosa, na qual entraremos em contato com a nossa Realidade Divina. Vamos tentar?

Aquietar o corpo, deixar a mente tranqüila, respirar suavemente e permitir que as Forças Espirituais desçam sobre nosso Ser, trazendo o amor e a paz a nossa mente e ao nosso coração! Vamos ficar assim alguns instantes, vamos meditar.

Paz a Todos os Seres!
OM Yoga
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