A Yoga no “Ishwaragita” (capítulos II à X)

shri-shiva-3

A YOGA NO “ISHWARAGITA”

(capítulos II à X)

De uma tradução francesa feita por P.-E. Dumont

(Paris, Geuthner, 1933)

            O “Canto do Senhor” (Ishwara) é o correspondente shivaita do “Canto do Bem aventurado” (Bhagavat), Krsna, avatar de Visnu. Obra de pelo menos um milênio depois, pois a expansão do culto shivaita é nitidamente medieval, enquanto que a Mahabharata visnuíta situa-se nas proximidades ou no início da era cristã. Está provado que a Gita shivaita existia no início do século XI.

O pietismo da bhakti e a filosofia samkhya, peças essenciais da primeira Gitã, tornam a ser encontradas na segunda, sob forma mais condensada. Não espere o leitor encontrar na Gita shivaita a rispidez do shivaismo ulterior e tântrico. Pelo contrário, estamos em presença de um conciliador: “aqueles que consideram que Visnu e Shiva são diferentes um do outro, esses não obtêm a redenção, e renascem sem cessar. Mas os que vêem que Visnu, o irrevelado, e eu, supremo Senhor, somos apenas um, estes não renascem. Por isso mesmo deveis considerar Visnu como sendo eu, e adorá-lo como tal.”

A densidade expressiva do texto é levada ao máximo. O rigor dos termos afirma-se em asserções de aparência paradoxal. O absoluto enquanto Shiva diverte-se com uma diversidade aparentemente contraditória: nisso consiste sua primeira “dança”. Sua Yoga é uma magia (yogue enquanto mayin). Suas diversas características conciliam-se como fases ou aspectos complementares segundo momentos diferentes. Não se trata de uma identidade hegeliana dos contrários, mas de uma equivalência através do vir-a-ser de aspectos distintos[1].

(II)

  1. Ele é aquele que governa do interior (antaryam), o espírito (purusa), o sopro vital (prana), o senhor supremo (Maheshwara), o tempo (kala) nesse mundo, o irrevelado (avyaktam = não manifestado), o veda. Tal é a tradição (çruti).
  2. Dele nasce o universo (viçvam), nele o universo se dissolve. Ele, o mágico (mayi), quando está acorrentado à sua magia, cria as diferentes aparências.
  3. Mas ele não muda; o Senhor (prabhu) não é transmigratório (samsaramayah). Não é terra, nem água, nem fogo, nem ar, nem éter.
  4. Não é nem o sopro vital (prana), nem o entendimento (manas), nem o não-manifestado (avyaktam); não é nem o objeto do tato, nem a forma, nem o sabor, nem o odor; não é agente (karta, agindo); nem a palavra (vac).
  5. Nem mãos, nem pés, órgão de evacuação, órgão de geração; nem o que age (karta), nem o que goza (ou o que padece, bhokta); não é natureza (prakrti) e espírito (purusa), nem ilusão (maya), nem sopros vitais (prana); nada disso é ele certamente!

10. Da mesma forma que não há conjunção de luz com obscuridade, assim também há unidade e não conjunção entre os fenômenos (prapanca) e o atman supremo (paramatman).

11. Da mesma forma que nesse mundo, sombra e sol diferem entre si, assim também os fenômenos (prapanca) e o purusa são fundamentalmente distintos.

 

14. A opinião: “Sou eu que ajo, que sou feliz ou infeliz, pequeno ou grande, é estabelecida pelos homens no atman por causa da qualidade de agente que possui o ahamkara (a individuação).

15. Aqueles (pelo contrário) que conhecem o veda dizem que o Espírito supremo é o testemunho da Natureza (prakrti), que a desfruta (bhoktar), que ele é inalterável (aksara), inteligente (buddha), onipresente.

16. Esta e a razão por que o ciclo das transmigrações (samsara), para dentro do qual são arrastadas todas as almas tem por origem a ignorância (ajnana) e esse erro (anyathajnanat) segundo o qual o Ser essencial (tattvam) está unido à natureza (prakrti) primordial.

17. Astro sempre alto, de luz própria, é porque não faz distinção entre ele e o princípio de individuação (ahamkara) que o Espírito supremo (purusa), que por toda parte penetra, julga ser o agente (kartar).

 

22. Sempre e por toda parte o secreto atman é imutável e isento de alteração. Único, (ekah), só participa da potência criadora (Shakti), por ilusão (maya), não por sua própria essência (svabhavatah).

O texto acima é um enunciado do sistema samkhya. Que conexão há entre essa metafísica e a prática dos iogues?

40. Acabo de expor-vos a samkhya, gnose suprema (jnanam uttamam), que contém a essência de todo o vedanta. Nela concentrar o pensamento, é a Yoga.

Aqui vedanta significa o último saber (não um sistema diferente de samkya); Yoga significa a aplicação em penetrar a samkhya, e não uma verdade ali onde a tradição concebeu diferentes sistemas. Ecletismo apresentado como progresso em profundidade. A estância seguinte aumenta em condensação: o último, o único método, é a Yoga.

41. Da Yoga nasce o conhecimento (jnana), do conhecimento nasce a Yoga. Para quem possui Yoga e conhecimento nada mais há a obter.

É a última palavra da Yoga shivaita. Encontremos-lhe a confirmação na terceira estância do texto seguinte.

(XI)

O Senhor (Ishwara) diz:

  1. Vou agora expor-vos a Yoga, extremamente difícil de atingir, pela qual os iogues se vêem no seu atman como o resplandecente Senhor.
  2. O fogo da Yoga queima rapidamente, essa gaiola, o pecado (papa); daí um conhecimento (jnanam) claro, imediatamente realizador do nirvana.

Observar que na Idade Média a noção de nirvana é usual fora do budismo.

  1. Da Yoga nasce o conhecimento, do conhecimento nasce a Yoga. O supremo Senhor (Maheishwara = Shiva) concede sua benevolência a quem pratica Yoga e conhecimento.

 

  1. Há duas espécies de Yoga. A primeira chama-se inexistência (abhava). Mas a outra, a grande Yoga, é a melhor de todas.
  2. Chamamos de Yoga abhava aquela pela qual o iogue vê a si próprio (atman) considerando sua própria natureza (svarupa) como vazia (çunya) e desprovida de toda falsa aparência.
  3. A Yoga pela qual ele vê que o atman imaculado é alegria eterna e que é idêntica a mim mesmo (o Senhor), chamei-a de Yoga suprema (parama).
  4. E todas as outras Yogas dos iogues, todas as outras das quais se fala na multidão dos tratados não valem a décima-sexta parte da Yoga que tem por objeto o brahman [o absoluto].

 

11. O controle da respiração (pranayama), a meditação (dhyana), o não-interesse pelos objetos exteriores (pratyahara), a concentração do pensamento (dharana) e a contemplação extática (samadhi), ó excelentes munidos, assim como as observâncias gerais (yama) e especiais (niyama), a maneira de assentar-se para a meditação (asana).

12. Assim como o fato de fixar seu pensamento em mim (mayyekacittata) constituem a Yoga segundo minhas instruções…

 

34. Essa Yoga que é chamada sunapha, e que é a vitória da sagarbha (obtida por pranayama fecunda), os sábios detectam ser a marca do pranayama dos iogues (1).

 

36. Em todos os tratados, o pranayama é chamado recaka, puraka e kumbhaka pelos ioguins que domaram o seu pensamento.

37. O recaka é o sopro que se dirige para fora; o puraka é o sopro que o retém. Chamamos kumbhaka à parada produzida pelo equilíbrio (do r. e do p.).

38. O fato de dominar os sentidos, que, por natureza, dispersam sua atividade sensorial pelos objetos exteriores, é chamado pratyahara pelos sábios (2).

39. A dharana (concentração) consiste em fixar seu pensamento no lótus do coração, no umbigo, na cabeça, no crânio, ou em qualquer outro lugar (do corpo).

40. Os sábios chamam dhyana (meditação) à continuação da atividade do pensamento que, uma vez fixado num lugar (do corpo), não se deixar desviar (distrair) pelos objetos que lhe estão próximos.

41. É preciso que o samadhi (contemplação extática) só tenha um único aspecto (o aspecto do objeto supremo da contemplação) e seja independente do lugar (do corpo) (sobre o qual o pensamento se fixou de início). Com efeito, a certeza (é produzida) unicamente pelo objeto (real) (da contemplação), (não pelo que serviu de início para fixar o pensamento): é o supremo mandamento da Yoga.

42. Doze pranayamas constituem a dharana; doze dharanas constituem o dhyana. Dizemos que o samadhi equivale a doze dhyanas [=produz-se quando se atingiu a décima-segunda dhyana].

 

Convidamos o leitor a contemplar sua informação com um exame do capítulo V, onde são explicadas as suaves efígies de Guimet. O círculo no qual se move o dançarino tem tanta importância quanto o divino personagem; é a roda das transmigrações. Divino artista: assim julgava Rodin, mas não Tagore. A maya de Shiva é a totalidade dos ritmos cósmicos e dos fervores humanos.

No enunciado dessa Gita, a entidade suprema é Shiva, mas Visnu lhe é quase igualada. Nenhuma oposição, por mais ligeira que seja, separa esses dois aspectos do absoluto, do mesmo absoluto. Conciliação não por justaposição mas por unidade fundamental; ao passo que a Gita do Mahabharata era o apanágio de certos devotos visnuítas, os que adoram Krsna; também que os ferozes tântricos de uma Idade Média mais avançada serão os zeladores de um shivaismo cego, ao qual repugnarão as sensaborias dos seguidores de Visnu.


[1] Tomamos a liberdade de tornar mais simples ou mais estrita a excelente tradução de Dumont.

 


Publicado

em

por

Tags: