O que é Rāja-Yoga

Por: Kulacarya Virananda Giri Nando Lall Kundu M.A.Ph.D.

A Necessidade, Inevitabilidade e Universalidade do Rāja-Yoga

Mães sagradas e mensageiros da fraternidade espiritual!

Ofereço de coração meu tributo e reverencio a todos, aqui reunidos no Brasil, à procura do elo que falta para entrar em comunhão com o espírito universal. Usufruamos juntos o bom resultado e as ricas experiências obtidas por cada um de nós no caminho do Yoga. Lembremos mais uma vez, nesta auspiciosa ocasião, o mantra Rig-Védico:

“Reunamos-nos, falemos em uníssono, deixemos que nossas mentes estejam unidas e de acordo com os pensamentos de todos, para que vivamos em felicidade e permaneçamos felizes”.

A palavra YOGA tem sido usada em vários sentidos. Pode significar união do eu individual (Jivātma) com o eu universal (Paramātma). Mas como não se pode caracterizar o eu como este ou aquele indivíduo, penso que o Yoga no sentido acima não foi compreendido da maneira certa. Yoga pode significar também a união de Deus e do homem, mas como essa suposição afirma um dualismo entre Deus e o homem, não indica o verdadeiro significado de YOGA. YOGA na realidade é a afirmação da identidade do eu adormecido, em estado inativo, para seu estado desperto de auto-luminosidade eauto-consciência. Isto pressupõe um plano inferior de existência entre a mente e o eu individual, entre os sentidos e a mente e entre os objetos e os sentidos.

A quintessência da Cultura Indiana, desde o despertar da cultura mundial, reside na afirmação de que é exclusivamente no YOGA que se pode encontrar a chave para a solução de todos os problemas da vida e da mente, assim como a realização do supremo valor da existência humana. “Ayam tu paramah Dharmah yat yogena Ātmadarśanan”, em outras palavras, é por intermédio do YOGA que a auto-realização, a suprema bem-aventurança da vida é obtida. O homem individual, imerso na escuridão da ignorância e girando no redemoinho dos prazeres mundanos, cheios de imperfeição, não pode realizar infinito e o eterno, a extrínseca divindade da natureza exterior e interior, a não ser que ele possa anular as influências da mente e suas constantes mudanças de estado e hábitos.

A inteligência autoluminosa, autoconsciente, não pode brilhar em sua glória prístina, enquanto a mente em suas flutuações não for pacificada, controlada e dirigida para a realização do eu. Esse controle da exteriorização dos sentidos, seu afastamento do mundo exterior dos objetos e a conseqüente submersão na mente marcam o primeiro passo do YOGA. Quando o aspirante ascende a um estágio mais elevado, realiza YOGA na suspensão das funções da mente. Nesse estado o nível mental é alcançado, mas a mente não cessa por completo. Elevando-se ainda mais alto, a mente cessa todas as suas atividades e deixa de existir inteiramente como uma entidade.

À medida que a mente perde, pouco a pouco, sua identidade, o eu começa a emergir das profundas cavernas do auto-esquecimento e ressurge em sua verdadeira natureza, como o espectador de todos os tempos e existências. Esta é a visão do “Sub-Specic Aeternitatis”, a insígnia da perfeição, a insígnia da realização (Parama Sreyah, Parama Preyah), o Yoga por excelência, ou Rāja-Yoga. Isto foi muito bem explicado na linguagem tântrica como o auto-despertar da “Kuṇḍalinī-Devi”, ou poder auto-consciente da auto-inteligência iluminada (Cit-śakti), do seu estado dormente, em sua marcha em busca da auto-realização. “Ādhare sarva-bhūtānam sphuranti Bidyutākṛti saṁkhāvartat krame Devi Sarvamavṛtya, tisthahti, kuṇḍalībhūta sarpanām añga sriyaupeyasi Sarvavedamayee Mata Sarvavedamayee Śive Sākṣāt Sunsmatara Bibhu Tridhāma yānani. Devi Sabda-Brahama-Swarupini (Śāradā Tilok Tântra Ch. I.)”.

De acordo com Rāja Yoga, como se expõe no Tântra, a consciência microcósmica, quando incorporada ao corpo humano é chamada o sujeito, o conhecedor. É envolvida por cinco invólucros, em sânscrito “Kośa”, a saber:

a) invólucro físico: Annamaya Kośa;

b) o invólucro vital: Prāṇamaya Kośa;

c) o invólucro mental: Manomaya Kośa;

d) o invólucro inconsciente ou subconsciente: Vijñānamaya Kośa; e finalmente:

e) o invólucro de suprema beatitude e consciência transcendental: Ānandamaya Kośa.

No invólucro vital ou Prāṇamaya Kośa reside o “élan vital” ou “força vital”, que é constituída de cinco sopros vitais, a saber:

a) Prāṇa, que controla a inspiração;

b) Udāna, que controla o descenso ou exalação da força vital que descarrega os ares, as excreções, a urina e o sêmen.

c) Apāna, que controla a ascensão da força vital;

d) Samāna, que controla a digestão e secreções glandulares; e

e) Vyāna, que controla a abertura e fechamento dos olhos e todas as ações involuntárias.

Neste ponto começam os exercícios psico-físicos para o yogin. Eles são chamados prāṇāyāma ou também a prática e desenvolvimento do poder de controlar e dirigir as forças psico-físicas. Para conseguir isto, é preciso sentar-se em posição ereta, conservar a coluna ereta de maneira que a energia vital que percorre a medula possa fluir livremente. O corpo, o peito, o pescoço e a cabeça devem ser mantidos em linha reta, possibilitando a realização de uma respiração rítmica.

O aspirante deve também familiarizar-se corretamente com os canais psico-nervosos, em sânscrito “Nāḍīs”, que são muito sutis, e portantoimperceptíveis, por onde fluem as energias psíquicas; os cinco principais “sopros” ou vāyus acima descritos. Os tantras mencionam quatorzeNāḍīs principais ou centros nervosos, dos quais três são fundamentais:

a) nervo mediano em sânscrito: Suṣumnā Nāḍī;

b) à sua esquerda, o Iḍā Nāḍī;

c) à sua direita, o Piñgalā Nāḍī;

O nervo mediano ou Suṣumnā é o centro nervoso principal, situado no oco da coluna vertebral, figurativamente chamado o “Monte Meru” do sistema nervoso autônomo. O Nāḍī Iḍā, à esquerda, e o Piñgalā à direita, enrolam-se à volta do nervo central. O Nāḍī Suṣumnā é a estrada principal para a passagem das forças vitais e psíquicas. Essas forças são por sua vez concentradas nos centros ou CHAKRAS, distribuídos ao longo do nervo mediano ou Nāḍī Suṣumnā e interligados e interceptados por ele. Nesses centros ou chakras todas as nossas forças vitais e psíquicas são armazenadas. São em números de seis:

1) Chakra Mūlādhāra, situado na parte mais baixa da coluna vertebral. Este centro do Nāḍī Suṣumnā ou nervo mediano é a raiz, a fonte ou nascente secreta de todas as forças psíquicas e vitais, assim como de todos os sons cósmicos;

2) Mais acima está o chakra Svādhiṣṭhāna, ou centro da energia sexual;

3) Acima está o Manipura, o centro do ego (Ahampratiti);

4) O seguinte é o centro cardíaco, o chakra Anāhata, o centro da circulação sangüínea, também onde é descarregada a vitalidade e energia psíquica para todas as partes do organismo. Este é o nervo cardíaco que irradia todo o organismo psicofísico. É como um núcleo de um átomo, onde todas as forças vitais e psíquicas movem-se e dançam. Este é o centro onde “a dança da eternidade, na ribalta do tempo” é representada. Foi chamado em Tântra “Hṛdayan Parameśitu”, o centro do coração de Parameśvara, o espírito criativo e existente em todos. O processo do peregrino alcança então a quinta parada;

5) O Chakra Viśuddha, localizado no pescoço. Este centro é onde todas as forças vitais e psíquicas são purificadas (por isso é chamado chakra Viśuddha) e tornam-se muito sutis. Crescendo ainda mais no seu processo de desenvolvimento e desdobramento, o Sādhaka ou peregrino espiritual atinge;

6) O Chakra Ājñā, situado entre as sobrancelhas, e que é chamado o terceiro olho, ou a região de percepção supra sensorial. Aqui os três nervos psíquicos fundamentais, o Suṣumnā mediano, o nervo esquerdo Iḍā, o nervo direito Piñgalā, encontram-se e depois separam-se. Aqui todas as forças vitais e psíquicas são consumidas na consciência trans-empírica. Integrando todas e ainda transcedendo-as, está a morada do supremo poder consciente transcendental, refulgindo em sua própria luz e auto-consciência, enviando seus raios para baixo através do Suṣumnā ou nervo mediano sobre a totalidade do organismo psicofísico, o que permite ao yogin submergir num estado de êxtase e beatitude. É este o estado de auto-realização.

Rāja-Yoga consiste no despertar do poder da Kuṇḍalinī, causa primordial e final de todos os poderes físicos, vitais e psíquicos. O desejo e o ideal de todos os praticantes de Rāja-Yoga é o despertar desse “poder inconsciente”, onde reside,espiralada e oculta, a poderosa onda de eternidade, por criação, preservação e destruição. Uma vez que esse poder fundamental é despertado ou ativado através de seus vários níveis ou chakras, alcança seu destino num lótus de mil pétalas no pericarpo do cérebro, como figurativamente se descreve o Sahasrāra. Este é um estado de suprema beatitude transcendental que derrama chuvas de ambrosía divina para alimentar e sustentar o organismo psicofísico em todas as suas partes. Este é o estado de auto-realização onde toda a ignorância ou avidyā desaparecem completamente e o aspirante espiritual realiza a sua própria natureza como principio espiritual autoconsciente e autoluminoso. Assim, o despertar da Kuṇḍalinī ou do “ser” (self) de seu estado adormecido é o caminho supremo para atingir a vida divina, a sabedoria divina e a percepçãosupra consciente. Esse despertar da Kuṇḍalinī pode realizar-se através de um intenso amor pelo Divino ser e a isto se chama “Bhakti Yoga”. Pode ser realizado pela procura totalmente desinteressada da Verdade, conhecida como Jñāna Yoga. Pode também se realizar pela renúncia total de todas as atividades e frutos das ações, méritos ou deméritos a Deus, o divino Self no homem; e isso é chamado Karma Yoga.

Agora, voltando ao nosso tema principal, pode-se notar que, no início, a prática do Rāja-Yoga envolve três práticas distintas que conduzem três estágios, a saber:

Hangsa-Yoga, que implica na arte de controlar e unificar a inspiração ou Prāṇa com a apāna, ou expiração e a retenção das duas correntes, representadas pelo Bija Hang, que representa Śiva ou a consciência indeterminada e Sah, que representa o poder, num estado de equilíbrio. Este é o poder consciente, a união da consciência suprema com o supremo júbilo. Isto é chamado Śiva-Śakti Samarasatā. Gradualmente com a continuidade da retenção da inspiração e exalação por algum tempo, advem um estado conhecido como transe, no qual o yogin realiza a auto-revelação do “Nadā” cósmico, o “Om” do chakra Manipura ou centro-nervoso umbilical. Este é o som macrocósmico muito sutil, permeando o universo inteiro de multivariados sons microcósmicos, cujas manifestações são o número infinito de alfabetos através dos quais nós compreendemos o significado das palavras e a fala. Uma coisa a ser notada é que todo processo de pensamento e de respiração interrelacionam-se e o controle completo do último levam ao controle do primeiro. Quando os processos gêmeos de inspiração e expiração atingem um estado de equilíbrio, surge uma completa suspensão do processo respiratório, assim como a cessação total dos pensamentos, sentimentos, emoções e paixões. O yogin atinge um estado quiescente, torna-se livre da escravidão do sofrimento e tem experiência supranormais. Este é “Hang-sah-Yoga”, a pedra angular para atingir a auto-realização. Este é o estado de negação e não de realização positiva. O Tântra diz “Sabda BrahmariNisnātah para Brahmādhigachhati”. Depois de realizar o som macrocósmico, deve-se entrar no estado de para-Brahma ou o supremo estado de beatitude perfeita, que é a auto-realização de Brahma, ou Brahmah realização.

É preciso ter em mente que a condição “sine quibos non”, ou melhor, a condição indispensável que um praticante de Rāja-Yoga deve preencher, é a de ser espiritualmente iniciado por um mestre, Guru ou preceptor espiritual. De acordo com Tântra Śāstra ou escrituras tântricas, existem três linhas de Gurus. A primeira é a maior, sendo puramente super-humana, em sânscrito “Divyaugha”, significando a linha divina; a segunda é a linha de “Siddhaugha”, a linha de gurus que atingiram o mais alto limite de iluminação espiritual; a terceira é a linha de mestres religiosos, em sânscrito chamados “Mānavaugha”, linha de gurus humanos com alguma realização espiritual. Depois de o discípulo ter sido bem testado, o Guru o inicia com o Mantra que lhe confere iluminação espiritual “Siddhi”. Mantra-Dīkṣā, ou iniciação espiritual por um guru é, portanto, a condição essencial para auto-realização.

O que seria o Mantra e quais seus efeitos sobre o Yogi e sobre a deusa adormecida… “Kuṇḍalinī” ou o Self em seu estado dormente? Uma prova do poder do Mantra reside na teoria indiana da Música. O universo inteiro é povoado de sons cósmicos, chamados em sânscrito “Nadā-Brahma” ou “Sabda-Brahma”. Esse som macrocósmico é constituído por milhões e milhões de vibrações micro-cósmicas. Se a nota chave ou, em sânscrito, o “Vadi-Sura” de um determinado corpo ou substância, for alcançado através do “Sādhana” ou prática prolongada, esse determinado corpo ou substância pode ser desintegrado através da enunciação do som. Em física moderna todo problema é explicado em termos de leis de vibrações. Cada organismo humano manifesta sua vibração própria, e quando essa escala de vibração é conhecida, o organismo ou forma humana pode ser desintegrado, pela prática oculta dessa vibração. O Mantra-Yogi, iniciado no Mantra de uma divindade qualquer, deverá aprender de seu Guru Deva a arte de enviar ondas psíquicas ou de sintonia com aquela divindade, similares, mas transcendentes telepáticas ou sem fio. Devido ao magnífico e ainda supremo poder do som formulado no Mantra, constituído por um número de vibrações que correspondem ao índice particular de vibrações ou poder espiritual, a deusa Kuṇḍalinī desperta. Como o ar exterior vibra aos sons físicos grosseiros, as vibrações do ar interior vital movem-se despertadas pelo canto dos Mantras.

A deusa Kuṇḍalinī primeiramente apanha o som mais sutil e oculto, o “Nadā”, e em tons de música divina ela desperta, em seu trono, o suporte-raiz, o centro psíquico, “Mūlādhāra Chakra”, e sobe cada vez mais alto, através da hierarquia dos chakras, um após o outro, alcançando seu destino no lótus de mil pétalas ou “Sahasrāra Chakra”, onde o som macrocósmico, com suas vibrações internas e externas, é transmutado pelo despertar da inteligência auto-iluminada. Aqui toda a música cessa. Todas as vibrações psíquicas e vitais são transmutadas no beatifício oceano da Eternidade. Este é o fim, o mais alto ideal de Rāja-Yoga, Śāntam Advaitam.

Para os que vivem numa era de ciência e tecnologia, cujo desejo é fornecer conforto material e felicidade, os ensinamentos e sermões dos sábios iogues do mundo aqui reunidos parecem incongruentes. Apesar disso, eles gritarão no deserto do desespero e desapontamento que interpenetram toda a vida civilizada moderna. Estamos exaltando o poderatômico como a maior e mais gloriosa realização do homem; fomos capazes de descobrir e libertar tremendos poderes físicos da natureza, tanto para propósitos destrutivos como construtivos e temos que pagar um preço muito alto por tudo isto. Esquecemo-nos do fato de que o homem descobriu os átomos, os átomos não se descobriram por si mesmos. O homem sempre permaneceu desconhecido e inexplorado atrás da máquina. Ele foi crucificado, repudiado, humilhado e negligenciado nesta época de ciência objetiva e tecnológica. Por outro lado, a Índia sempre tentou descobrir e libertar poderes altamente racionais, poderes morais e espirituais, os tremendos poderes vitais e psíquicos que estão adormecidos no homem, e trazê-los ao foco de nossa autoconsciência através do YOGA, que tem uma única significação:- UNIFICAÇÃO para que o homem esteja unido a todos os outros homens em pensamentos, ações e aspirações. Não há outra maneira de se chegar à unificação do homem com o homem, do homem com a vida divina, do homem-em-Deus com Deus-no-homem. Unificação significa, realização da identidade do mesmo Self aqui, lá, em toda a parte.

A “Necessidade”, “Universalidade” e “Inevitabilidade” do Yoga só podem ser ignoradas por aqueles que se concentraram em libertar as forças psíquicas e vitais para o acúmulo de valores mundanos, riquezas, poder e sexo. Nós não estamos negando o fato de que estes são necessários para a existência terrena, mas quando considerados absolutos corrompem totalmente. Este é o veredicto da História. O homem faz a História, a História não faz o homem. Quando, por outro lado, o homem se concentra na descoberta e libertação de forças benéficas vitais e psíquicas por meio do YOGA, reside aí a sua emancipação e o fim do sofrimento.


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