Yoga e Meditação

Por: Sri B. K. S. Iyengar

Em algum momento em sua vida o homem deve se voltar para o Espiritual porque “não é só de pão que vive o homem” – Mas ele acredita ser este contato doloroso e que deveria ser feito de uma maneira tão indolor e rápida quanto possível. A meditação está em voga. Atrizes permanecem em meditações por cinco minutos e aí falam de como elas intensificam sua “beleza espiritual”.

Há uma luta violenta por lugares no ônibus da meditação, mas a “viagem para o transcendente” não deveria demorar mais do que cinco minutos. A arte da meditação tem sido compactada e revestida de açúcar – sendo até (a meditação), induzida por drogas. Uma viagem através do LSD ou marijuana é suposta a dar a auto-realização sublime do senhor Budha, enquanto Cristo é considerado um “hippie”.

Contudo, se uma viagem ao espaço exterior exige uma rigorosa disciplina cobrindo um período de anos, deve ficar claro que uma viagem ao transcendente não é tão fácil assim. As exigências de uma meditação feita corretamente são mais rigorosas do que a disciplina que um cosmonauta precisa. Uma viagem ao espaço pode falhar devido à falha de um minúsculo fio e a meditação pode continuar a se prender as coisas terrenas se o corpo não for esquecido.

A meditação por isto deve começar com o corpo que é o veículo do Self (Eu) que, se ainda não tiver controlado seus desejos não permite que a verdadeira meditação aconteça. A sabedoria dos antigos sabe disto, mas a sociedade moderna ignora o corpo. Ao se ignorar o corpo salta-se da ignorância do corpo para o assunto da alma. Por essa razão o corpo não pode ser ignorado. Um mosquito, uma dor de estômago, um nariz escorrendo desviam a atenção para eles e o sublime cai no ridículo. Um corpo embotado gera uma mente embotada, um corpo distraído, uma mente transtornada.

É fácil afirmar que se pode meditar no centro de Piccadilly (na Inglaterra), mas alguém alguma vez tentou aquietar o Piccadilly de seu próprio corpo, nervos e emoções. Os Yoga Sūtras de Patañjali, o clássico sobre sabedoria meditativa começa com o comum, e não com o esotérico. “Escolha um lugar” diz Patañjali, (assim como também outras autoridades antigas) “livre de insetos, barulho e odores insalubres, estenda um tapete e sente-se nele”. A escolha da hora também é importante – antes do nascer ou depois do pôr do sol, porque, ao alvorecer e ao entardecer, o espírito de Deus reflete-se sobre a terra como uma benção curadora. E para uma mente prática, há menos poluição nestes horários.

A postura do corpo é importante. Não trataremos agora do quão importantes são os āsanas para a prática meditativa, mas a meditação começa com o corpo, e a consciência que vem de dentro de cada poro do corpo nos vários āsanas, isto é a própria meditação. É como se ligássemos milhões de olhos espirituais.

A mente impregna o corpo e ainda permanece como uma observadora, o corpo se torna a mente e ainda permanece totalmente vigilante como corpo. E assim, mente e matéria se fundem num dinamismo de uma energia pura, que está ativa sem ser despendida, criativa sem levar a exaustão. Os āsanas não são simplesmente importantes porque fortalecem os nervos, pulmões e outras partes do corpo, mas também por seu papel na meditação. Eles próprios são veículos da ação meditativa.

A postura clássica meditativa que nos é descrita, mesmo nas ruínas de Mohenjodaro, é a de pernas cruzadas, a postura de Padmāsama, com a coluna reta e rígida. Quando os antigos, contudo, aconselhavam “sentem-se em qualquer posição confortável com a coluna reta”, certamente eles não queriam dizer que era de qualquer jeito. Porque ao se sentar de uma maneira solta, tal jeito desleixado induz ao sono e sonolência, o que não é apropriado para a meditação.

A meditação não faz a mente embotar-se. Ao contrário, em meditação a mente está quieta, mas afiada como uma gilete, silenciosa, mas vibrante de energia. Mas este estado não pode ser alcançado sem uma postura sentada firme e estável, onde a coluna sobe e a mente desce e se dissolve na consciência do coração, onde o verdadeiro Eu se revela.

Todo o corpo, longe de ser ignorado fica absorto nesta vigilância espiritual até que todo o homem se torne pura chama. Uma coluna alerta ereta cria uma intensidade espiritual de concentração que queima todos os pensamentos dispersos e o refletir sobre o passado e o futuro, e deixa a pessoa num presente novo e puro.

Em Dhyāna ou pura meditação, os olhos permanecem fechados, a cabeça bem posicionada, ereta e o olhar dirigido para baixo e para trás. Enquanto o olhar fixo e paralelo dos olhos esteja procurando a escuridão que fica além da parte posterior da cabeça, por Ele que é a luz verdadeira que ilumina cada homem. A pele do rosto fica relaxada e abaixada. O cérebro se solta dos sentidos, como os olhos, ouvidos, língua e torna-se passivo, a consciência passa da parte ativa, agressiva e frontal do cérebro para a parte posterior do cérebro que é calma e observadora. As mãos estão pressionadas juntas, palma contra palma em frente ao osso do peito. Esta postura clássica de todo aquele que ora não é somente simbólica, mas também prática. Simbolicamente a palma saúda o Senhor que está dentro de nós. A mente é atraída e se rende ao Sagrado. Esta entrega, ao quebrar a corrente dos pensamentos perturbadores, aumenta a intensidade da concentração de qualquer pessoa. Falando praticamente, as mãos estão fechadas e juntas pelo magnetismo do corpo humano. O aumento ou decréscimo de pressão nas mãos é o padrão da sensibilidade, vigilância e liberação dos pensamentos perturbadores que alguém pode ter. O equilíbrio exato das correntes elétricas do corpo também pode ser testado pelas palmas pressionadas, uma contra a outra. Se ambas as palmas se pressionam igualmente, tanto a mente como o corpo está em equilíbrio e harmonia. Se uma palma tiver mais pressão do que a outra, aquele lado do corpo é o mais vigilante também. Ao aumentar a pressão na palma mais fraca um ajuste delicado deve ser feito para trazer unidade ao corpo – A mente de volta ao equilíbrio. Porque Yoga não é nada senão perfeita harmonia.

Afirma-se que a meditação yóguica não tem conteúdo sendo um mero esvaziamento da mente. Para aqueles que tiveram a experiência de sua riqueza e preenchimento satisfatório, tal afirmação só pode soar ridícula. O intelecto da mente pode cessar as flutuações, mas o intelecto do coração sai em direção ao Senhor. E é o coração que importa. Há realmente necessidade do conteúdo insignificante de nossos próprios pensamentos quando o coração é atraído na direção do Único infinito que está sempre perto e jamais desaparece imanente e transcendente ao mesmo tempo?

As técnicas Yóguicas de prāṇāyāma ou respiração são meditativas em sua origem e em seus efeitos. Consistem basicamente de inalação, retenção e exalação. Seus movimentos rítmicos acalmam a mente ao afastarem os sentidos e ajudam a pessoa a desvendar as profundezas do Eu.

Diferente de Dhyāna, a cabeça é afundada no peito em uma chave de queixo firme (jālandharā bandha). Fisicamente a chave de queixo alivia a tensão no coração.

Mentalmente a chave de queixo solta o cérebro de dominações egoísticas e o torna mais gentil e impessoal. A chave de queixo leva a pessoa ao âmago calmo do coração onde o Senhor reside. As mãos ou repousam sobre os joelhos ou controlam a respiração com os dedos nas narinas. Mas outro aspecto básico da meditação é também o olhar fixo dos olhos, a coluna ereta, etc. que são mantidos. As técnicas de prāṇāyāma, assim como os asanas, são veículos de meditação e de orações. Inalação ou pūraka é a aceitação do Senhor, retenção ou kumbhaka (um pote cheio de água até a borda se torna daí por diante silencioso) é saborear em muita profundidade a quietude do coração. A exalação ou recaka não é simplesmente uma exalação, mas sim o esvaziamento do ego. A exalação torna a pessoa impessoal e, portanto, ela é um instrumento perfeito de entrega ao Senhor. É a maneira superior de entrega ao Senhor.

Exalação também pode ser entendida como um processo de limpeza. Quando a respiração é gentilmente exalada em direção ao coração este fica livre dos desejos maldosos e das perturbações emocionais. Este processo de limpeza refrescante que começa pêlos pulmões pode ser comparado a ārādhana ou Abiśeka feito toda manhã aos ídolos nos templos ou quando as águas do Ganges pingam no lingam do Senhor Śiva, então a exalação flui pela vida dando Lingam (Jivātma) interno, mantendo-o sempre limpo e puro. Esta entrega ao Senhor tem que ser aceita e então há um período de quietude depois da exalação para que o Senhor aceite esta entrega antes que a Inalação comece.

A meditação é uma experiência subjetiva e descrever estas experiências subjetivas em palavras seria insuficiente para relatar a realidade. Para dar um exemplo: Nada poderia descrever o prazer do sabor de uma manga quando damos a primeira mordida nesta fruta deliciosa. Assim também acontece com a meditação. O estado da mente pode ser descrito ao se usarem as técnicas seguras e certas, mas o sabor da fruta só pode ser concedido a aqueles que “provam e vêm que o Senhor é doce”.


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