Yoga e Religião

“Trabalho enviado para o IV Congresso Internacional de Professores de Yoga”
Bertioga – SP – Brasil  16 a 23 de Novembro de 1973
Por: Yogacarya B.K.S. IYENGAR
Professor e escritor

No decurso de meus 40 anos de pratica de Yoga, todos, ocidentais e orientais, tem-me perguntado se Yoga é religião. E qual a ligação entre Yoga e Dharma. Este pequeno artigo se propõe a responder.

Yoga é uma Religião Universal

Vários escritores mencionam Yoga como uma arte, uma ciência ou filosofia. Não há dúvida, que, apesar de o Yoga ser tudo isto, é preciso enfatizar que ele é uma parte, uma parcela de qualquerDharma verdadeiro, e não hesito em chamá-lo de religião universal.

O que é Dharma? O Mahābhārata  nos diz:

“Aqueles que caíram, que estão caindo ou que estão para cair, aquilo que os escora, que os levanta e os traz de volta para si mesmos isto é Dharma ou religião”.

Esta queda pode ser nos planos físico ou mental, moral ou espiritual. Os antigos sábios falaram deste Dharma, comoSanāthana Dharma. Sanāthana significa eterno, e Dharma significa o modo de vida, a purificação através de uma disciplina perfeita, determinando cada movimento de ação para o aperfeiçoamento dos indivíduos, da sociedade ou do estado. Assim, SanāthanaDharma significa aquilo que não tem começo nem fim; aquilo que é eterno e imutável. Apesar deste Dharma ser dividido em várias categorias, referimo-nos ao Ātma Dharma e Śarīra Dharma. Aqui,Dharma é dividido da seguinte maneira:

SANĀTHANA DHARMA – Quadro I 
A importância do Śarīra Dharma
As citações feitas ilustram amplamente a grande importância de bem-estar físico para o prazer de viver e para a libertação de todos os desejos Mokṣa. Uma criatura fraca não pode atingir o Ātman; nem qualquer Sādhana é possível sem um corpo perfeito. Yoga Śikhopaniṣad diz que somente um corpo limpo de sua natureza tamasica pode ser chamado de templo. Negligenciar o corpo na procura do Eu Maior é um pecado.
Vairāgya ou renúncia, como geralmente é compreendida, não nos leva ao conhecimento do “eu”. A renúncia ao corpo acontece quando todos os órgãos e faculdades estão sob completo controle; e quando ela é transformada no estado do eu (self), então, sua verdadeira entidade é esquecida. Esta é renúncia no seu sentido verdadeiro (exercendo-a e, ao mesmo tempo, experimentando o estado da não-existência). Mas, até então, o corpo não pode ser negligente. Esta é a razão pela qual nossos sábios deram uma importância muito grande a prática do Dharma no Yoga, que éŚarīra Vidyā.

Yoga é para todos
O Yoga Cintāmaṇī nos diz que Yoga pode ser praticado por todos, sem discriminação de casta, credo, cor ou sexo. Mesmo a idade não é uma barreira – moços e velhos podem praticá-lo do mesmo modo. O Haṭha yoga pradīpikā também afirma que má saúde não é uma barreira, desde que, saudáveis e doentes, o pratiquem com benefícios para si mesmos. O Yoga é classificado da seguinte maneira:

YOGA SĀDHANA – QUADRO II
Quando o Sādhaka pratica Yoga intensivamente, acende a luz do “eu”, que leva ao Senhor. Esta luz do “eu” é a verdadeira religião. Assim, Yoga pode ser descrito, sem hesitação como a religião mais elevada, como uma senda para a verdadeira vida religiosa, interligando os três caminhos, karma, bhakti e jñāna, para o bem do individuo e da sociedade.

Por exemplo: Yama ou a ética social tem cinco aspectos: não violência, dizer sempre a verdade, honestidade, celibato e a não aceitação de presentes. Estas cinco virtudes são virtudes sociais, que podem ser observadas, independentemente de credo, cor, tempo, fronteiras nacionais ou sexo, em qualquer lugar do mundo.Niyama ou disciplina individual tem também cinco aspectos: pureza interior e exterior, alegria, fervor ardente, estudo do “eu” e submissão total ao Senhor. Estas são as virtudes individuais. Não são estas praticas corretas para qualquer indivíduo que viva na sociedade humana?

O corpo é a base ou o ponto principal para qualquer ação oukarma. Deveria ser conservado em condições ideais, puro e belo, porque é o templo do espírito. Quando, entramos em um templo, lavamos nossos pés e mantemos nossa mente em silencio para nos entregarmos ao senhor. O corpo também deve ser mantido limpo e silencioso, quando entramos no templo interior do “eu”. A disciplina não é, então, uma verdadeira senda do karma?

No Katho Upaniṣad o corpo é comparado a uma carruagem, o intelecto ao cocheiro, a mente às rédeas, os sentidos ao conhecimento, a ação aos cavalos, e os desejos aos pastos. O corpo, comparado à carruagem, precisa ser forte, saudável e harmonioso, sem essas qualidades, o entendimento, que é o cocheiro, não pode controlar as rédeas, ou seja, a mente, nem os sentidos. Quando todos eles estão sob controle, então o homem atinge seus quatro puruṣārthas: religião, poder, prazer e liberação.

O QUE É SAÚDE?

A saúde é algo que pode ser adquirido? A saúde não é comodidade, nem tampouco se livrar da doença implica em saúde. Saúde é aquele estado no qual se está em harmonia consigo mesmo. Isto compreende bem-estar físico, equilíbrio emocional e estabilidade intelectual. Também implica em estar em união com os que nos cercam e com o criador.

Patañjali enumera vários impedimentos que fogem ao controle da mente. Estes são: doenças físicas, entorpecimento mental, dúvida, descuido, preguiça física, egoísmo, credibilidade, isto é, crer facilmente em coisas que não são verdadeiras e apatia, ou seja, não fazer sequer tentativas, considerando a prática  fora do próprio alcance. Além disso, depois de uma prática ardente, o sādhakapode acreditar que o fim tenha sido alcançado. Novamente, o sofrimento, uma mente volúvel, vacilação ou instabilidade do corpo e do processo da respiração atuam como impedimentos. O remédio para estes quatorze impedimentos é o caminho dos oito degraus do yoga, estabelecido pelo grande Patañjali.

Além disso, não é possível seguir o caminho do Dharma se seus alicerces, isto é, a saúde do corpo, está ela mesma estremecida. Há dois tipos de Śarīra Sādhana: Sarvāṇga Sādhana (exercícios com todo o corpo) e Aṅgabhāga Sādhana (movimentos parciais do corpo). Os sistemas ocidentais exercitam o corpo somente em certas partes, mas o sistema yogui tonifica o corpo inteiro. No ocidente, somente o corpo grosseiro é exercitado enquanto no sistema yogui exercitam-se tanto o corpo grosseiro quanto o sutil. Nosso corpo tem cinco envoltórios: o anatômico, o fisiológico, o psicológico, o intelectual e o bem-aventurado. O corpo tem vários sistemas, tais como o circulatório, o respiratório e o nervoso, assim como articulações, glândulas e outras partes. No yoga estas partes são exercitadas e se mantém saudáveis, enquanto que nos sistemas ocidentais somente a parte anatômica é exercitada. O yoga, favorecendo uma boa circulação no corpo, elimina todas as toxinas e impurezas e conserva-o leve, alerta e saudável. O yoga pode também ser praticado por todos, como já foi dito no começo deste artigo, o que não acontece com os sistemas ocidentais; além disso, o Yoga necessita apenas de 3 x 6 pés de espaço, um cobertor e a vontade de praticar, enquanto os outros sistemas requerem maior espaço, equipamento e companhia.

O CAMINHO DO BHAKTI EM ĀSANA E PRĀṆĀYĀMA
O praticante de Āsana  deveria sentir que cada postura é um veículo do Senhor, que está em todo lugar e também dentro de nós. Se o praticante se entrega à postura com tal atitude interior, Deus, que está dentro de cada um, deleita-se com essa submissão e osādhaka pode permanecer por um determinado espaço de tempo na postura. Esta atitude não transforma então o Sādhana físico numSādhana espiritual? Além disso, a rendição do corpo e do “eu” deste modo traz humildade. Em outros tipos de exercícios, talvez o ego predomine e, assim, o culto da personalidade é desenvolvido; na prática do Yoga, entretanto, pratica-se o culto da despersonalização.

Também o  Prāṇāyāma desempenha um papel fundamental no desenvolvimento dos aspectos fisiológicos e psicológicos, proporciona energia, aumenta a força de vontade e torna o cérebro aguçado e alerta.  O Prāṇāyāma tem quatro facetas: inalação, retenção na inalação, exalação e retenção na exalação. Nestes processos está enquadrado o Bhakti Marga. Enquanto inala, osādhaka não deveria pensar que está inalado o ar, mas sim, o Senhor, sob a forma de respiração: na retenção, deveria sentir que o Senhor está com o “eu” individual. Ele deveria perguntar a si mesmo se pode ousar fazer intromissões ou provocar distúrbios quando o próprio Senhor está comungando com o “eu” individual. Na exalação, o “eu” individual sai e se entrega ao Senhor, que existe em toda parte. Na retenção após a exalação, o “eu’ individual já se entregou ao Paramātma e está em completa harmonia com ele. Como pode alguém perturbar tal estado? Com isto torna-se claro que o Prāṇāyāma praticado com esta atitude mental conduz a pessoa pelo caminho do Bhakti.

Os quatro degraus do Yoga: Yama, Niyama, Āsana e Prāṇāyāmasão chamados Bahiraṅga Sādhana ou Sādhana externa.  Prāṇāyāmae Pratyāhāra que levam a manter os sentidos e a mente sob controle são chamados Anṭaraṅga Sādhana. A mente e os sentidos são libertados do seu jugo das coisas externas. São atraídos para dentro e projetados no “eu”. A projeção purifica os pensamentos e os sentimentos e leva a realização de si mesmo.

ANTARĀTMA SĀDHANA E JÑĀNA MARGA OU O CAMINHO DO CONHECIMENTO
No caminho dos oito degraus do Yoga, os últimos três degraus,Dhāraṇā (concentração), Dhyāna (meditação), e Samādhi(completa unidade do Eu, desprovido de outros envoltórios) são conhecidos como Antarātma Sādhana. São tecnicamente chamados de saṁyāma ou integração: Há vários tipos de integração ŚarīraSaṁyāma, Īndriya Saṁyāma, Prāṇā Saṁyāma, Mano Saṁyāma,Jñāna Saṁyāma e Ātma Saṁyāma. Tem-se que avançar passo a passo na prática do Yoga para atingir a integração completa.

Dhāraṇā é trazer um objetivo à concentração pelo poder da mente. Depois da concentração no objetivo, quando objetivo e sujeito estão unidos e não há diferença entre eles, eu, para descrever de um modo diferente, quando o meditador e o objeto no qual medita tornam-se um só, o estado de Dhyāna é alcançado. No Samādhi, sujeito e objeto desaparecem, e o Eu resplandece em primeiro plano sem nenhuma interferência do consciente. Permanecer nesta pureza prístina, na glória da unidade é Samādhi. Este estado onde corpo mente e intelecto se dissolvem, e somente o Eu brilha como o sol, é chamado Turīya Avastha. Assim como o mar é agitado na superfície, mas tranqüilo e sem movimento nas profundezas, assim é o estado de samādhi. Mesmo que um ser  vivencie todos os movimentos  do corpo e da mente, ele é, no intimo de si mesmo, calmo e quieto. Tal pessoa pode também ajudar o sofredor, pois ele mesmo, como a cânfora, tornou-se um ser dotado de chama. Ele tira um envoltório após outro, e permanece com o último, que é o EU MAIOR.  Aqui ele permanece como o “eu”  imortal. No momento em que o “eu” é esquecido ele atinge o estado mortal. Aqui o Yogui vive com o “eu”  conhecido como o Mokṣa Sādhana.  Não é este o estado mais elevado do Jñāna Sādhana? Não é também o Dharma Sādhana? Não é o próprio Dharma ele mesmo, já que a meta do Dharma  é estar em união com o ĀtmaMarga? Mas se Ātma Marga é Dharma Marga, então o YogaMarga é definitivamente também o Dharma Marga. Apesar de oYoga Marga ter oito degraus, compreendendo Bahiraṅga Sādhana,Anṭaraṅga Sādhana e Antarātma Sādhana, depois de se ter atingido a completa integração não há diferença no Sādhana. Todos eles são um só.

Assim, o Yoga, como religião universal, abrange desde a disciplina do corpo até a disciplina do EU MAIOR. Do indivíduo a sociedade em geral e do mundo ao Senhor do Universo.

Compartilhe:


Publicado

em

por

Tags: