Um guia (incompleto) sobre mestres, líderes, messias e gurus

 

Um guia (incompleto) sobre mestres, líderes, messias e gurus

Ruy Alfredo de Bastos Freire Filho

A grande onda de Kanagawa
A grande onda de Kanagawa

 

 

“Existem muitos gurus como há lâmpadas em uma casa ou outra, mas é raro o Guru que ilumina a todos como o Sol.”

Kulanarva Tantra (capítulo IX)

 

           Em uma canoa à deriva no meio a uma maré agitada, a placidez do Monte Fuji é a única referência serena para os navegantes  da  embarcação.  A  xilogravura mais célebre do mestre Hokusai ilustra a grande onda que inquieta  as almas humanas, o mar de samsara budista, com a  deusa/montanha  Fuji sinalizando a segurança da terra firme.  Atravessar turbulências é sina da trajetória humana, e no mar encapelado ou no nevoeiro, qualquer tipo de farol, sinalizando o resgate, dá o norte à bússsola .  Nestes períodos incertos, onde as referências desaparecem, fragilidades se expõem,   o amparo de um guia, pastor, mestre, preceptor, guru  ou messias  é  tão bem-vindo quanto o colo dos pais na primeira infância.

O mundo contemporâneo instituiu a figura do terapeuta para inquietações individuais, mas o magnetismo de mestres ou gurus persiste. Talvez por terem a aura enobrecedora da missão.  Quando surpreendidas em redemoinhos, as sociedades também buscam seus guias;  no plano coletivo, o fenômeno se repete: a objetividade fria de um tecnocrata sucumbe facilmente ao carisma do messias político.

Os gurus ou messias serão sempre mais eficientes na mobilização de uma energia transformadora. Prescindem de questionamentos, removem dúvidas, espalham convicção e resolução.  Mas se a boia salvadora que eles nos atiram ajuda a superar o turbilhão, com frequência nos arrasta para outras corredeiras. Tão humanos quanto aqueles que são resgatados, a maioria destes preceptores, encantados com suas próprias façanhas, muitas vezes são tentados a transformar o colete salva-vidas na indumentária do dia a dia.

Uma antiga parábola indiana relata a estória de um sábio tão pleno de virtudes que os Devas (deuses), tocados, decidiram lhe outorgar qualquer graça que lhe conviesse. O asceta então pediu o dom de espalhar alívio e felicidade por onde passasse sua sombra. As divindades, intrigadas pela natureza do pedido, perguntaram o porquê de um desejo tão inusitado. O sábio justificou: para evitar saber quem seriam os beneficiários, e para que esses também ignorassem a origem da graça.

Eis a grande equanimidade: espalhar a ajuda sem julgar os méritos do recipiente, e muito menos granjear gratidão. Mas messias não exibem tal virtude, nem religiosos ou politicos. O messianismo é uma arte onde é mais importante o santo do que o milagre. O timoneiro  vive do reconhecimento de seus pretensos méritos, principalmente em navegações turbulentas. São seus eventuais prodígios que perfilam as multidões, arrebanham seguidores, criam devotos. Ao contrário do anacoreta da parábola, a visibilidade de suas façanhas é o principal instrumento de trabalho de um guia politico ou espiritual: sob túnica do anonimato escasseariam tanto votos como devotos.

A lenda hindu nos aponta o mundo ideal, onde, despojado do interesse por resultados, o bem se espalha como o deus Kama ( do amor): ananga (sem membros), sem forma,  sem identificação. Livre de atributos e restrições, a bem-aventurança universal se expande, extrapolando tudo que é relativo e limitado, como o são as pessoas e doutrinas;  assim teria sido o mundo no período denominado  Satya Yuga (a Era da Verdade),  segundo a mitologia hindu.  Curiosamente, a verdade é o primeiro  sacrifício que fazemos ao seguir um grande guia. Ficamos ofuscados  pela luz que ele irradia, sem nos perguntarmos se é luz própria ou gerada por alguma fonte de energia não renovável. Deslumbrados, nem questionamos se ela ilumina todos os trechos do percurso, e giramos como mariposas em sua órbita.

O messias, uma vez eleito, goza de privilégios. Os traços controvertidos de sua personalidade tendem a desaparecer,  serem atenuados, quando não justificados. Certa ocasião, ao visitar um  amigo que dirige um orfanato perto de Kathmandou, deparei-me com a imagem de um célebre guia espiritual indiano tomando um terço da parede de sua sala. No centro do cartaz, exibindo um grande sorriso benévolo e em  gesto protetor, lá estava o antigo preceptor de  Idi Amin Dada. Consta que suas relações com  o ditador ugandense não se limitavam ao horizonte espiritual:  no plano material envolviam a troca de  pedras preciosas de Uganda por armas indianas.  Este guru também era  acusado de pedofilia por vários de seus ex-discípulos, além disto  tinha no  prontuário o assassinato  de quatro seguidores  dentro de seu Ashram em circunstancias obscuras.  Sua fortuna era estimada em quase um bilhão de libras esterlinas .  Em tempo, revelei meu  desconforto. Meu amigo  me levou à janela, apontou as crianças e disse:  “Tenho quase quatrocentas delas e preciso de recursos para sustentá-las.”  A objetividade do auxílio se sobrepunha à subjetividade das controvérsias.

A volta da devoção cega  a um preceptor é, por via de regra, dolorosa, gradual, conflituosa.  É um confonto com convicções nutridas às vezes por anos. Antes da renúncia, a  reação natural de qualquer indivíduo nessas circunstâncias  é o apego à ilusão e  a negação de evidências contrárias ad nauseam.   Este fenômeno, denominado dissonância cognitiva se refere a manter uma crença mesmo contra todos os indícios,  por ter acalentado esta crença por longo período. Contribuem outros cacoetes psicológicos, como o vício do status quo, onde as pessoas se arriscam mais a manter o status quo do que a mudá-lo; a heurística representativa, fenômeno onde as pessoas tendem a tratar eventos como representativos de uma categoria ou padrão, mesmo quando estes padrões não existem,  por sentirem familiaridade e segurança; e culminam no denominado ancoramento,  postura que permite  a pessoa ser influenciada por sugestões até de pessoas que elas sabem que não são bem informadas no assunto, principalmente se vier a reforçar o credo de estimação.

A extensa  tradição oriental de guias espirituais, particularmente na denominada relação guru/shishya (mestre/ discípulo), aborda  este vínculo entre o pastor e seu rebanho.  Dattatreya, tido como a encarnação de Vishnu, Brahma e Shiva,  reconheceu nada menos que 24 gurus no seu caminho de emancipação espiritual. Livre de sectarismos e doutrinas, contemplando os aspectos multifacetados da natureza, aprendeu de todas as fontes:  os quatro elementos, o céu, a lua e o sol, um pombo, uma píton, o oceano, uma mariposa, uma abelha operária,  o elefante,  o veado, o peixe, uma prostituta, um corvo, um bebê, uma donzela, uma cobra, um artesão, uma aranha, um besouro. Ele representa uma linhagem heterodoxa onde os ensinamentos vêm da observação da sabedoria inerente do mundo natural, admitindo o  alcance limitado da capacidade humana de retransmitir  conhecimentos  universais.

A incompetência de meios humanos para alcançar o entendimento da verdade, no seu sentido mais amplo, é reconhecida por Adi Shankaracharya, o grande pensador da escola de Advaita Vedanta. Para ele, mestres e/ou doutrinas são úteis mas devem ser descartados, sob pena de restringirem a emancipação do homem.

E se a capacidade de observação de Dattatreya e o discernimento de Shankaracharya forem inalcançáveis aos comuns mortais? O tantrismo, com seu viés universalista, admite que a imensa maioria de nós precisa de um guia. E enfatiza a importância dos mais experientes para a condução da grande massa de desorientados. O guru é a base do caminho tântrico. A via tântrica se notabiliza pela relação mestre/ discípulo (guru/shishya). Entretanto, de acordo com os shastras (escrituras), esta entrega não pode ser incondicional.

Um dos mais completos compêndios sobre a relação mestre/discípulo na visão do tantra é o “Kulanarva Tantra”, associado à escola dos Kaulas.   A necessidade do guru  é anunciada no capítulo dedicado ao culto: “Proclamem a glória do Guru, …o Guru é o salvador.” O mesmo texto   adverte que a relação não é unilateral na contabilidade kármica: “E mais, como os erros do ministro são depositados na porta do rei, os da mulher na porta do esposo, assim os pecados do discípulo acrescem-se ao Guru.”

Estabelecido o elo entre o mestre e o discípulo, o capítulo denominado a “Adoração do Guru”    inicialmente esclarece a posição do Guru no caminho da libertação: “De sua posição transcendental o Senhor (Shiva) na forma de Guru, liberta-nos da cadeia do pashu (animal de rebanho). …O fogo da devoção ao Guru queima tudo que provém de maus pensamentos.”, e   instruiu  o discípulo na atitude perante o mestre identificado: “Suporte o corpo para o bem do Guru; adquira riqueza para o bem do Guru; esforce-se para o Guru sem considerar a sua própria vida. Se o Guru falar severamente, tome-o como bênção, mesmo uma sua pancada, aceite como presente. Qualquer que sejam os objetos de prazer, oferece-os primeiro ao Guru e fique somente com as sobras.”

         O capítulo subsequente do “Kulanarva Tantra”  denominado Guru-Shishya ,  tem início  com recomendações ao Guru que precedem a aceitação do discípulo, uma vez que  é co-responsável pelos seus atos: “O Guru terá que desistir de aceitar como discípulo alguém que é de uma descendência perversa, aquele que é mau, desprovido de boas qualidades,… criminoso, sendo exigente, colérico, dando falso testemunho, enganando todos, vaidoso por ser o melhor de todos, falso, cruel, de fala indecente, loquaz,…”,  e  discorre sobre as características do discípulo ideal:

“O discípulo eleito tem que ser alguém de feição auspiciosa, dedicado ao sadhana que conduz ao samadhi; de boas qualidades e de cultura; limpo fisicamente e nos trajes, sábio, dedicado ao Dharma, de mente pura, firme nas observâncias, ….”

A partir deste ponto, o shastra se dirige a todos nós , mortais comuns à deriva no mar do samsara.  Um pequeno manual com advertências sobre  como selecionar um mestre em meio a tantas ofertas.

O guru verdadeiro, na visão do Kulanarva Tantra, tem uma função aparentemente paradoxal. A de ser um pastor que nos liberte do rebanho: ‘Pena, dúvida, medo, vergonha, desgosto, questão familiar, casta – são estes os laços; preso a eles esta o pashu (animal do rebanho). Livre dos laços somos o Senhor (Shiva), aquele que remove esses laços é o Guru supremo”. Portanto a sua primeira e principal característica é não ser ele mesmo parte do rebanho.

“Quem conhece a Verdade, faz até com que o animal do rebanho (pashu) a compreenda. Mas como será possível a alguém que não tenha este conhecimento transmitir a Verdade? Aqueles que forem instruídos por conhecedores da Verdade, se tornarão sem dúvida, eles também, conhecedores da Verdade. Os que são instruídos por pashus, permanecem pashus. … Somente o liberado pode liberar. Como poderia o não liberado ser o liberador?”

            E detalha:

“Existem muitos Gurus como há lâmpadas numa casa e em outra; mas raro é o Guru que ilumina todos como o sol…

Muitos são os Gurus que roubam a riqueza do discípulo; mas raro é o Guru que afasta as suas aflições….

Somente aquele, rico em conhecimento, pode levantar o tolo, realmente como poderia um tolo levantar um tolo?…

            Somente o barco pode carregar uma pedra ao outro lado, é evidente que uma pedra não pode carregar uma pedra…

            Preocupado com os negócios do mundo não se pode obter nenhum fruto, seja aqui ou ali, com um Guru que não conhece a Verdade.”

No seu caminho para o discernimento o texto nos avisa que podem haver vários Gurus.

  “Os Gurus são de seis tipos: (8) “Preraka”, o impulsor, que impele interesse que leva a iniciação; “Sucaka”, o indicador, que indica o sadhana para o qual o interesse foi despertado; “Vãcaka”, o comentador, que explica o processo e o seu objetivo; “Darsaka”, o demonstrador, que demonstra definitivamente a obra e seu alvo com mais detalhes; “Siksaka”, o instrutor, que de fato ensina como fazer o sadhana; “Bodhaka”, o Inspirador, que acende no discípulo a lâmpada do conhecimento mental e espiritual. Desses, os cinco primeiros são, como se vê, os efeitos dos últimos que são a causa. Porque é somente a sabedoria compreensível, revelada pelo Bodhaka que torna frutífera toda a contribuição dos outros. A instigação, inauguração, explanação, direção e ensino permaneceriam estéreis se não forem aceitos e assimilados pelo conhecimentos despertado.”

O discípulo deve cultivar um senso crítico em relação ao seu preceptor. A fé não pode ser cega. A devoção ao mestre não deve ser desproporcional a capacidade que este tem de  literalmente dissipar as trevas

“Como as trevas são destruídas pela vista das lâmpadas, assim a ignorância é destruída simplesmente pelo mero olhar santo do Guru.”

Guru é um acrônimo onde  gu significa trevas; ru o que as limita. Portanto o guru é aquele que controla as trevas (da ignorância). É o monte Fuji apontando o caminho da terra firma no mar revolto do Samsara. O verdadeiro guru é, em suma, um guia para a Verdade. Entretanto o Kulanarva Tantra reconhece a escassez destes indivíduos, e instiga o aspirante a prosseguir a caminhada.

“Mas se não tiver um Guru que tem o conhecimento e sempre cria dúvida, não se culpe por procurar um outro. Como a abelha vai de flor em flor, ávida por mel, assim o discípulo, ávido de conhecimento, vai de Guru em Guru.

            Temos que observar aqui que esta liberdade, de ir de Guru em Guru, tem as suas vantagens e desvantagens. Cada Guru tem o seu próprio caminho de aproximação e comunicação. O aspirante é o que lucra, encontrando muitos que são avançados na marcha. O seu horizonte se alarga, a sua mente se torna mais firme. Mas ele é o discípulo de ninguém e a responsabilidade de reunir tudo que ele recebe, de organizá-lo de acordo com a sua própria evolução, pesa unicamente nos seus próprios ombros.”

            A palavra sânscrita   Acharya  significa tanto ‘aquele que ensina’, como   ‘o exemplo daquilo que ensina’,  e é per se o grande marcador de um líder a ser seguido. Gandhi certa vez foi solicitado por uma mãe a admoestar seu filho que se excedia nos doces. Ele pediu à mãe que voltasse dentro de um mês. Quando ela voltou o Mahatma  advertiu o menino sobre os riscos do açúcar. A mãe se indignou e perguntou ao líder porque não tinha dito isto um mês antes. Gandhi respondeu que quando perguntado pela primeira vez, ele mesmo ainda sucumbia aos doces.

Nem é sempre preciso prospectar  os shastras  e tradições do oriente para encontrar ponderações que nos levem à cautela  na busca de um Messias. O socialista americano Eugene Victor Debs se celebrizou com esta provocação:

“Eu não quero que me sigam nem a outro qualquer. Se estão  procurando um Moisés que os tire desta selva capitalista, fiquem, onde estão. Eu não os levaria a terra prometida se pudesse, porque se eu pudesse leva-los para lá, alguém poderia trazê-los para fora.”

Parece que a tradição hinduísta e o líder socialista convergem. O guia que realmente liberta, não está do lado de fora. Emprestando a ideia da meditação budista que mostra nosso inimigo como mestre, já que ele nos indica nossas limitações e falhas, as controvérsias  de nossos guias ou messias são talvez um dos seus mais importantes ensinamentos. Nos apontam nossas contradições através de nossas expectativas.

 


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